É sempre bom apreciar Woody Allen

Há várias maneiras de se apreciar "Meia-Noite em Paris". O mais recente filme de Woody Allen, uma fantasia ambientada em épocas diferentes de Paris, continua o tour internacional do diretor - Londres, Barcelona e Roma também estão na lista - após uma vida de ancoragem quase total em Nova Iorque.


Owen Wilson é Gil, um escritor norte-americano em busca de sucesso literário, casado com Inez (Rachel McAdams), curtindo um período de férias em Paris. Gil é do tipo intelectual moderado de esquerda.  Fascinado pela cidade, suspira com os cafés charmosos e as pequenas livrarias. Já Inez está mais preocupada em comprar nova mobília.

O filme não dá muito detalhe sobre as circunstâncias em que o casal se conheceu. Mas não há momento no enredo que sinalize a menor sintonia entre eles. A distância se agrava quando o casal se torna um quarteto, graças à incômoda presença dos sogros de Gil na comitiva.


Gil, como é costume nos filmes de Allen, é o personagem alter-ego do diretor. E Wilson, com seu talento para viver tipos desajustados e maneiristas, cumpre com sobras a tarefa que já coube a atores dos mais diversos calibres, como Jason Biggs, Kennet Brannagh e até mesmo Scarlett Johansson.

À medida que a trama se desenrola, e a distância entre Gil e Inez vai aumentando, Woody Allen prepara a transição do roteiro rumo ao fantástico. Uma noite, caminhando pela cidade, Gil para em uma ladeira para respirar. Então, um carro de luxo antigo aparece do nada, à meia-noite, e lhe oferece uma carona. Para o passado.


O que se vê dali em diante é um verdadeiro "who is who" do cenário artístico nos anos 20. Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Cole Porter, Luis Buñuel e tantos outros nomes passam a ser personagens do filme, contracenanado em seus habitats do passado com Gil, realizado após a primeira noite que ele vai tentar repetir todos os dias, à meia-noite. Valem os destaques para o Salvador Dali de Adrien Brody e Hemingway de Corey Stoll.

Com diálogos rápidos, o filme demanda bagagem de seu espectador para ser totalmente compreendido. Allen até tenta facilitar. Por exemplo, sempre que um novo personagem aparece, o diretor cita o nome do artista e, já engatando uma piada, faz referência a uma obra conhecida. Pra alguns casos, como o de Picasso, até funciona. Mas identificar Djuna Barnes, por exemplo, é bem mais difícil.

Mas mesmo quem não conhece os personagens históricos pode se identificar com a história do amor surreal de Allen e Adriana (Marion Cotillard), que ele conhece quando retorna no tempo. Allen se preocupou em colocar ingredientes para vários paladares. Como por exemplo a participação especial da linda Carla Bruni, primeira-dama da França, que faz uma ponta como guia de museu.

Se não fosse de Woody Allen, "Meia-Noite em Paris" poderia facilmente ser considerado pretensioso e até esnobe. Mas Allen, com sua vastamente reconhecida fama de gênio, já passou da fase de autoafirmação sobre sua erudição. Por isso, dizer que o filme é um Woody Allen legítimo está mais do que bom para defini-lo.

O filme foi indicado em quatro categorias do Oscar e não seria surpresa se levasse os prêmios de direção de arte e roteiro original. Allen também está indicado como melhor diretor e nunca pode ser desprezado em uma disputa com esse título. Como melhor filme, no entanto, o caminho de "Meia-Noite" está mais complicado. Mas, como o próprio Allen, dono de três estatuetas, já deixou claro outras vezes, os filmes não são feitos para ganhar prêmios.

"Meia-Noite em Paris" não é excelente como alguns filmes de Woody Allens do passado, como "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", ou "Hannah e Suas Irmãs", o que deve fazer torcer narizes de fãs mais ortodoxos. Mas é um ótimo Woody Allen contemporâneo e merece ser apreciado assim. Afinal, como diz Gil, em uma das falas do filme, "o presente sempre parece um pouco insatisfatório, porque a vida é insatisfatória." "Meia-Noite em Paris", no entanto, não o é.
É sempre bom apreciar Woody Allen É sempre bom apreciar Woody Allen Reviewed by Diego Iwata Lima on 13:02 Rating: 5

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