Elenco e fatos são trunfos de Histórias Cruzadas


O Mississipi, no sudeste dos EUA, é o estado que reúne a maior população negra do país. Segundo o censo de 2005, 37% da população do Mississipi é composta por cidadãos afrodescendentes, como prega dizer a cartilha politicamente correta.

Por lá, a escravidão foi abolida em 1863, pelo presidente Abraham Lincoln - vinte anos antes de a Princesa Isabel assinar a Lei Áurea, por aqui. Mas, no final da década de 1960, mais de um século depois, ainda havia o costume de empregadas negras, descendentes de escravos, serem repassadas como herança nos testamentos, por exemplo. E essa é apenas uma das diversas atrocidades cometidas contra os negros há menos de 50 anos nos Estados Unidos, retratadas no esquemático, e ainda assim ótimo, "Histórias Cruzadas" (The Help).


O primeiro trunfo do filme de Tate Taylor, em seu projeto de maior destaque até o momento, é justamente o que mais impressiona: as histórias relatadas no filme são baseadas em fatos reais da vida de Kathryn Stockett, autora do romance The Help (traduzido no Brasil como A Resposta), adapatado pelo diretor. O segundo trunfo, não menos importante, é o elenco. Não à toa, três atrizes de Histórias foram indicadas ao Oscar. Viola Davis, favorita ao troféu de melhor atriz, é Aibileen, uma empregada acostumada ao determinismo racial e ao fato de ser praticamente um bem de Elizabeth Leefolt, sua patroa.

Elizabeth faz parte de um grupo de amigas brancas da elite de Jackson, capital do estado. A líder do grupo, cuja maior diversão é jogar Bridge, é Hilly Holbrok. Vivida com maestria por Bryce Dallas Howard, que não foi indicada ao Oscar, mas merecia ter sido lembrada, Hilly é uma defensora contumaz de atos segregacionistas. É criadora e defensora de uma medida que pretende transformar em lei a segregação de banheiros para negros e brancos em todas as casas do estado, por exemplo. "Valoriza o imóvel na hora de vender", justifica-se.


Mais pelo fato de ter vivido sua infância junto a estas garotas, do que por afinidade, Skeeter Phelan (Emma Stone, cada vez melhor) também faz parte do grupo. Aspirante a escritora, a jovem jornalista também cresceu no ambiente racista de Jackson, tendo inclusive sido criada por uma babá negra, como todas as demais. Mas, após ir à faculdade, Skeeter retorna à sua terra natal e começa a se sentir incomodada com alguns hábitos considerados normais. E decide escrever sobre a situação pelo nunca antes explorado ponto de vista das empregadas. Isso pode ser considerado crime, dependendo da avaliação do juiz.

É claro que a ideia sofre resistência. Não dos brancos, que sequer podem saber que Skeeter está escrevendo sobre o assunto. Mas sim das empregadas negras que ela precisa convencer a falar. Temerosas de serem descobertas e não arrumarem mais empregos, poucas querem contribuir. Exceto por Aibileen e Minny (Octavia Spencer, indicada como melhor atriz coadjuvante), revoltada com algumas injustiças de que
é alvo antes de se aproximar de Cecilia Foote (a linda Jessica Chastain, de A Árvore da Vida, também concorrente a melhor atriz coadjuvante).


"Histórias Cruzadas" concorre ao Oscar de melhor filme com chances de vitória. No Globo de Ouro, foi derrotado por "Os Descendentes", estrelado por George Clooney. No BAFTA, viu o favorito "O Artista" sair com o troféu. Mas a repetição da dobradinha do Globo de Ouro, que premiou Viola Davis e Octavia Spencer em suas categorias, é barbada. Octavia levou também o BAFTA. Independentemente de uma possível vitória na premiação, "Histórias Cruzadas" já é um dos filmes mais relevantes dos anos 2000.

É curioso pensar que o atual presidente dos Estados Unidos Barack Obama já estava vivo quando muitas dos fatos relatados em Histórias aconteceram. Mas Obama, para sorte dele, nasceu no Havaí. Se tivesse nascido do Mississipi, talvez não estivesse hoje vivo para acupar o cargo que conquistou nas urnas.


Ao longo das últimas décadas, os Estados Unidos trabalharam muito para tentar amenizar um pouco das consequências de anos de segregação racial. Mas não haverá ação afirmativa, muito menos sistema de cotas em universidade, capaz de apagar tantos anos de vergonha e injustiças contra cidadãos livres por conta de suas composições genéticas. Injustiças encampadas, legitimidadas e defendidas por nações ditas civilizadas e democráticas.
Elenco e fatos são trunfos de Histórias Cruzadas Elenco e fatos são trunfos de Histórias Cruzadas Reviewed by Diego Iwata Lima on 00:15 Rating: 5

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.