"Flores de Kirkuk" - Que saudade do Iraque!


Realmente gosto de filmes iranianos, ou iraquianos. Na verdade, sou atraído por qualquer filme que tenha sido produzido naquele pedaço do globo, ou que ao menos retrate a antiga Pérsia e adjacências - entram aqui Afeganistão, Azerbaijão, Curdistão, Armênia...

Foi esse motivo que me despertou o interesse por as "Flores de Kirkuk", durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2011. O filme, que entra em cartaz hoje, dia 23 de março, é uma produção ítalo-suíça, mas foi filmado no Iraque, em 2010. Lembro-me de ter entrado entusiasmado na sessão, que estava lotada, aliás. Valeu para matar a saudade das paisagens e da temática. Mas, infelizmente, tive azar de pegar uma sessão em que o filme foi exibido dublado em italiano.


A experiência de se assistir a um filme mais pelo aspecto artístico e cultural do que pela qualidade de entretenimento, propriamente, precisa vir com o pacote completo. Em outras palavras: ver um filme concebido para ser falado em farsi, dublado em italiano, estragou grande parte da experiência para mim. Mas tirei, assim mesmo, algum proveito da fatídica sessão.

Porque o que mais me fascina nos filmes iranianos e semelhantes é o retrato social. Sim, acho muito bacana a montagem completamente caótica, para os padrões ocidentais, de alguns deles. Adoro as atuações naturalistas, o áudio captado com esforço e os roteiros que não se importam com os tais métodos e fórmulas do cinema que chamamos de convencional. Mas o que realmente me deixa boquiaberto são as peculiaridades ideológicas e sociais retratadas na tela. O aspecto mais cru do que cruel da mentalidade local e a maneira como, enfim, aquele enorme número de pessoas leva suas vidas.



"As Flores de Kirkuk", de Fariborz Khamkari, conta a história de Sherko, um médico curdo, que tenta viver um amor impossível, meio contra vontade, para ser sincero, com Nagila. O problema é que curdos, embora vivam em um enclave territorial dentro de território iraquiano, fronteiriço à Armênia e o Irã, são inimigos mortais dos conterrâneos de Saddam Hussein, vivo e atuante na época em que a trama acontece. Assistir ao filme serviu para eu matar a saudade de "vivenciar" aquela situação de restrição absurda de liberdade juntamente com os personagens. Além do fato de o filme voltar a trazer à tona o genocídio curdo, um crime brutal contra a humanidade, o que é sempre útil.



Mas, infelizmente, falta alma ao filme. Justamente porque o longa é completamente convencional no que diz respeito aos aspectos técnicos e artísticos. Nada dos planos intermináveis ou da fotografia poética. Em outras palavras, nenhuma daquelas "esquisitices" tão fascinantes - como dizem os infiéis, para usar um termo muito em voga por lá. Trata-se apenas mais uma história de amor, que poderia se passar em qualquer outra situação de guerra ou conflito, com leves adaptações - morro carioca, Guerra de Sessessão, Quilombo dos Palmares, subúrbio de Los Angeles ou Timor Leste. Também com atuações ocidentalizadas e apenas razoáveis, falta ao filme o "algo mais".

Quer conhecer o cinema do Oriente Médio? Tente "Ninguém sabe dos Gatos Persas" de Bahman Ghobadi, que também dirigiu os ótimos "Tartarugas podem voar", "Half-Moon" (veja meu ingresso autografado pelo diretor abaixo) e "Exílio no Iraque". Por causa  desse último, aliás, eu paguei R$ 70,00 em um CD de música curda. Mas isso é história pra outro post. Ou para minha próxima sessão de terapia. Procure também por "A 40a Porta", do Arzebaijão.



Tem ainda os Makhmalbaf, Abbas Kiarostami, Jafar Panahi e muitos outros. E sim, sinto-me mal por ainda não ter assistido a "A Separação". Mas pretendo resolver isso ainda nessa sexta.

Não reclame. Se você me conhece, ou leu meu minha bio, já sabia que eu era esquisito.
"Flores de Kirkuk" - Que saudade do Iraque! "Flores de Kirkuk" - Que saudade do Iraque! Reviewed by Diego Iwata Lima on 10:08 Rating: 5

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