"Ninguém sabe dos gatos persas" - Teerã Blues e a arte do filme triste

Texto originalmente publicado em 2 de novembro de 2009 no blog Bonasera, Bonasera, atualmente inativo. Em tempo: para saber mais sobre a banda real retratada como fictícia no filme , veja o perfil do "Take it Easy Hospital" no Facebook

Poucos realizadores são tão hábeis quanto Bahman Ghobadi na arte de fazer filmes tristes. Embora sua obra também traga momentos engraçados, que por vezes até beiram um desnecessário pastelão, o iraniano se mantém firme como inegável entusiasta da extração de lágrimas de suas platéias - e o faz sem muita sutileza. Sair incomodado de um de seus filmes, como os belíssimos "Tempo de embebedar cavalos" (2000) , "Exílio no Iraque" (2002), "Tartarugas podem Voar" (2004), ou até do menor Meia-Lua (2006), é o procedimento padrão.

Mas essa não é sua única especialidade. Ghobadi tem manifesta preferência por trabalhar com elencos sem experiência, o que sempre confere aos seus filmes um característico tom naturalista - comum a outros bons cineastas de seu país. O iraniano, que também se destaca por emoldurar seu trabalho com a crítica sócio-política e procurar sempre inserir a música em seus roteiros, é figurinha fácil na Mostra de São Paulo. Quatro vezes premiado em Cannes, o diretor vem ao Brasil nesse ano com "Ninguém sabe dos gatos persas" (2009), um legítimo Bahman Ghobadi, vencedor do Prêmio Especial do Júri em Cannes.


Diferentemente da maior parte dos filmes do iraniano, "Ninguém sabe" tem ambientação urbana, e conta a história de um jovem casal apaixonado pela música indie internacional, sufocado pelo regime e ansioso por deixar o Irã rumo a uma carreira artística na Europa

O Irã é a república do não. Não se pode fazer música, cantar em inglês, deixar o País ou ter uma só mulher na banda sem a permissão do Ministério Islâmico, que regula a moral e os bons costumes com uma pesada mão conservadora. Mas, ao contrário do que gostam de acreditar os poderosos da terra de Ahmadinejad, a máquina estatal não é perfeita. E a especialidade do agitador cultural Nader, que mesmo participando dos momentos mais dramáticos da trama, é o seu alívio cômico, é burlar o sistema: seja baixando filmes, promovendo shows ou ajudando o jovem casal de protoganistas, Negar e Ashkan, a obter músicos acompanhantes, vistos e passaportes para fugir rumo à Europa.



O filme acompanha a saga dos jovens e, ao longo do caminho, faz desfilar pela tela diversos tipos de manifestações culturais de uma impensável e eclética Teerã underground, que graças ao seu amplo leque de proibições, tem desde grupos tradicionais típicos e semi-folclóricos a bandas de Heavy Metal e rappers cantando em farsi.

Seguindo a forma que o consagrou, de mesclar momentos leves e densos à medida que a trama se desenrola, Ghobadi faz de "Ninguém sabe" um musical dramático não-assumido, uma espécie de "Teerã Blues", em alusão a "Habana Blues", filme de 2006, ambientado na capital de Cuba. Cada um dos grupos visitados pelos protagonistas aparece em performance - alguns até tocam sobre videoclipes um tanto primários para os padrões ocidentais.



E como todo filme de Bahman Ghobadi, "Ninguém sabe" tarda, mas não falha. À medida que o filme se aproxima de seu desfecho, o tom mais leve vai dando lugar a uma sensação de sufocamento e angústia, eficientes, na medida do possível, na tarefa de preparar o espectador para o inesperado, abrupto e melodramático clímax. E ele vem, acreditem.

Ninguém sabe mostra um Ghobadi em forma, sem fugir de suas características, mas ousando experimentações. Além da evidente oportunidade de se poder enxergar o Irã além das vilas e montanhas empoeiradas, recorrentes na filmografia do país, o filme é envolvente e o roteiro, cumpridor na tarefa de criar empatia pelos personagens. Vale também um destaque para as composições interpretadas pelas bandas fictícias - ou não - da trama. Em especial para o duo dos protagonistas Negar e Ashkan, com uma sonoridade muito semelhante à dos os escoceses do Belle & Sebastian.
"Ninguém sabe dos gatos persas" - Teerã Blues e a arte do filme triste "Ninguém sabe dos gatos persas" - Teerã Blues e a arte do filme triste Reviewed by Diego Iwata Lima on 09:28 Rating: 5

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