O Poderoso Chefão: Quarenta anos de uma relutante história de... amor


Mario Puzo escreveu o livro "O Poderoso Chefão" para ganhar dinheiro e quitar algumas dívidas com apostadores e agiotas. Ex-soldado da Força Aérea norte americana, o funcionário público Puzo já havia publicado livros bem-sucedidos em termos de crítica, mas que pouco lhe renderam financeiramente.

Puzo precisava produzir algo que apelasse às massas. Assim, em 1969, decidiu colocar no papel as histórias de mafiosos que ouvira ao longo de toda vida. Descendente de italianos, e morador do bairro Hell's Kitchen, em Nova Iorque, reduto de imigrantes da Bota, Puzo tinha matéria-prima abundante para basear sua nova obra.


Foi por causa de um livro comprado ao acaso que me apaixonei por "O Poderoso Chefão". O ano era 1999. Meu primeiro ano de faculdade. Por coincidência, o último ano de vida de Mario Puzo. Professores em greve faziam um protesto na Avenida Paulista, travando o trânsito de uma tarde de sexta-feira. Sem paciência para esperar o fluxo se restabelecer dentro de um ônibus, deixei o prédio da Faculdade Cásper Líbero e caminhei em direção à esquina com a Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, onde havia uma livraria Saraiva.

Coppola, de camisa listrada, ao centro, dirige Marlon Brando, à sua direita, na sequência do casamento de Connie
"John Gotti: O Último Mafioso" de Howard Blum, cujo título original é "Gangland: How the FBI broke the mob" (Terra de Gangues: Como o FBI destruiu a máfia), estava na estante de promoções. O livro-reportagem mais legal que já li me custou R$ 1,50 e despertou minha paixão por temas relativos à mafia do mundo real. A história verídica da prisão do último grande "Don" da Cosa Nostra, a máfia norte-americana, foi o que me incentivou a mergulhar de cabeça no que viria a ser meu filme favorito de todos os tempos, juntamente com sua continuação "O Poderoso Chefão II", de 1974.

"O Poderoso Chefão", vencedor de três prêmios do Oscar em 1972 (melhor filme; ator e roteiro adaptado) me conquistou na primeira cena. Quando Salvatore Corsitto, na pele de Amerigo Bonasera, pronunciou "I believe in America" (Eu acredito na América), percebi estar diante de algo diferente. Enquanto Bonasera, cujo nome inspirou meu antigo blog de cinema, contava a história da filha "desonrada" por um americano, eu mal sabia que minutos me separavam de ver Marlon Brando em uma das maiores atuações da História.


Vários teóricos do cinema já se questionaram acerca das razões que fizeram com que "O Poderoso Chefão" se tornasse tão mítico. Há quem diga, como o famoso crítico Roger Ebbert, que o segredo do roteiro está na relação familiar dos personagens, com quem todos podemos nos identificar. Outros justificam o culto ao filme com os impecáveis aspectos técnicos e artísticos. Gay Talese, por outro lado, acredita que o segredo está na temática. "A Máfia funciona tão bem na vida real que não haveria como não funcionar na ficção", disse ele, à época do lançamento do filme. 

Não creio ser possível encontrar uma única resposta para a adoração ao filme e ao livro. Porque o longa dirigido pelo genial Francis Ford Coppola reúne tantos ingredientes, a começar pelo proprio diretor, que acabou se transformando em uma obra incomparável. Em uma entrevista à revista Vanity Fair dos EUA, Coppola disse que o menor sinal dos primeiros acordes da trilha composta por Nino Rotta para o filme (ouça aqui) lhe causava arrepios pela lembrança traumática da época das filmagens. Em mim, os arrepios são de sempre de admiração e pela alegria do contato com uma obra tão completa.

Roteiro, fotografia, direção de arte, diálogos, atuações. Não existe nada "mais ou menos" em o "Poderoso Chefão". E o que dizer das várias frases imortalizadas pelos personagens? Quem nunca repetiu "Vou fazer-lhe uma oferta que ele não poderá recusar"? Ou saiu do carro dizendo "Deixe a arma e pegue o Canolli"?

O elenco é uma espécie de seleção de 70 do cinema. Marlon Brando dispensa comentários. Um jovem Al Pacino, já atuando com enorme desenvoltura, consegue dar o tom exato da metamorfose sofrido por Michael Corleone ao longo do roteiro. John Cazale, com seu ar apatetado, cai como uma luva no papel de Fredo Corleone. Robert Duvall, por razões diametralmente opostas às de Cazale, também está perfeito como o consigliere Tom Hagen. E o filme ainda traz Diane Keaton, James Caan, Talia Shire e tantos outros atores em personagens secundários brilhantes.


"O Poderoso Chefão" é um dos principais expoentes de uma época em que fazer cinema, mesmo em Hollywood, envolvia mais paixão. A  própria história da produção daria um ótimo filme. As brigas de Coppola com a Paramount, que ameaçava demiti-lo quase semanalmente, ajudaram a compor o tom tenso que acompanha cada fotograma. As lendas que dão conta de que nomes como Orson Welles, Warren Beaty, Jack Nicholson e Laurence Olivier chegaram a ser cotados para integrar o elenco também ajudam a moldar e dimensionar o mito. 

Por incrível que pareça, por se tratar, afinal, de uma história de criminosos, "O Poderoso Chefão" foi uma das obras de arte que mais me ensinou sobre a importância da lealdade e da ética. A maneira romantizada como os personagens de Puzo seguem as regras de um código velado - bem como a facilidade com que as quebram, quando necessário - ajudou-me a formar uma ideia do caráter que eu, do alto de meus 19 anos, gostaria de construir para o meu eu adulto. Como escreveu a crítica Barbara Schulgasser, do jornal San Francisco Examiner, "Don Vito Corleone é um criminoso, mas tem integridade." 

Mas após ter assistido ao filme tantas vezes, cheguei a uma explicação diferente para o seu sucesso. "O Poderoso Chefão", apesar de seus 18 corpos falecidos ao longo quase três horas, é, lá no fundo, uma história de amor. O amor à familia - ou famiglia, nesse caso - e às tradições. O amor ao pai ferido, ao irmão assassinado, à irmã que precisa entender que sua viuvez precoce é importante para os negócios familiares.


Quarenta anos se passaram desde o lançamento do filme, em 14 de março de 1972. E, por quatro décadas, os esforços coletivos de Coppola, Puzo, Brando, Pacino, Nino Rotta e tantos outros artistas conseguiram se manter como um exemplo eterno de que o cinema não precisa deixar de ser arte para entreter. Tampouco deixar de ser entretenimento para ser artístico. 

Que a família Corleone possa viver por outras quatro décadas no imaginário de todos aqueles que gostam de cinema. Pois, como diz o antigo provérbio italiano, "Il tempo può cambiare tutto". Mas se mudou "O Poderoso Chefão", o fez apenas para melhor. 
O Poderoso Chefão: Quarenta anos de uma relutante história de... amor O Poderoso Chefão: Quarenta anos de uma relutante história de... amor Reviewed by Diego Iwata Lima on 15:39 Rating: 5

Um comentário:

Eve disse...

Adoro esta trilogia e concordo plenamente com a sua afirmação que trata-se de uma história de amor.
Parabéns pelo excelente texto!

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