"Jogos Vorazes" aposta na tensão para se tornar grande franquia pós-adolescente

"Que a sorte esteja sempre ao seu favor"


O clima parecia o de uma decisão por pênaltis de um campeonato importante, com um jogador do time da casa a caminho da cobrança decisiva. O silêncio só era interrompido por uma ou outra respiração mais ofegante. Esse era o ambiente nos minutos finais de "Jogos Vorazes", na sala em que o assisti. O filme de ação e aventura, inspirado na saga literária pós-adolescente homônima da escritora Suzanne Collins tem no clima de tensão sua maior qualidade.

A equipe de edição de "Jogos Vorazes", comandada por Stephen Miglionne, vencedor do Oscar por "Traffic", não tinha uma tarefa tranquila. Amarrar as cenas dos personagens em ação com os bastidores do "programa de TV dentro do filme" requeria habilidade para não deixar a história enigmática demais para as plateias mais jovens, ou muito didática para os mais velhos. No fim, conseguiu mais do que isso. Deixou o longa com fluidez de ritmo e ainda soube aproveitar sem exagero cada pequeno gancho de suspense ao longo do roteiro. O resultado é um filme em que quase toda sequência deixa uma pitada de ansiedade. 

Gary Ross, dirigiu o lendário "Quero ser grande". E o título de seu filme de maior sucesso também poderia ser um subtítulo para o primeiro capitulo da franquia que nasce com força para preencher o vazio deixado pelo fim da saga "Harry Potter" e pronta para tomar o lugar de "Crepúsculo" como produto de entretenimento do momento. Não que os filmes possam ser comparados no que diz respeito ao argumento. Mas não dá para não lembrar do bruxo com a cicatriz na testa diante dos ares redentores que a personagem de Jennifer Lawrence (indicada ao Oscar por "Inverno da Alma"), ainda mais bonita morena, adquire durante o longa.


O filme se passa em um futuro pós-apocalíptico no qual a capital de uma nação chamada Panem (da expressão latina Panem et Circensis - Pão e Circo, em latim acusativo), na América do Norte, governa doze distritos com mão de ferro para abafar qualquer eco de uma revolução acontecida quase cinco décadas antes. A maneira escolhida para exercer controle foi deixar os distritos na pobreza. Quanto maior o numeral do distrito, mais distante geograficamente ele está da capital - e pior sua condição financeira. Katniss Everden (Jenifer Lawrence), a personagem principal da história, vive no 12º distrito.

Como se não bastasse essa condição sub-humana, existem também os compulsórios Jogos Vorazes, que no original em inglês têm o nada sutil nome de Jogos da Fome. O que faz todo o sentido, já que o vencedor da competição garante mantimentos para seu distrito por pelo menos um ano. Os jogos são um cruzamento de Big Brother com Circo Máximo Romano. 24 jovens, chamados de tributos, são sorteados ou voluntariados nos doze distritos. Selecionados, vão tentar sobreviver em uma floresta criada artificialmente em um vale-tudo pelo prêmio. Matar outro competidor não é apenas permitido, mas também incentivado.


Na mesa de edição, o objetivo dos produtores é tornar mais difícil a sobrevivência de alguns. Seja colocando animais ferozes para perseguir os tributos que não caíram no gosto da audiência, seja facilitando o acesso a armas, remédios e outros recursos aos preferidos da audiência - mais ou menos o que o Boninho finge não fazer no BBB, com a diferença de que, pelo menos até hoje, ninguém morreu no programa da Globo. Quem comanda a carnificina é Seneca Crane (Wes Bentley), sob as ordens do presidente Snow (Donald Sutherland).

No distrito 12, Katniss passou a ser responsável pelo sustento de sua casa após a morte de seu pai. Sua mãe (Paula Malcomson) sofreu um colapso nervosos que a impede de cuidar de Katniss e de sua irmã mais nova, a frágil Primrose (Willow Shields). Para sobreviver, Katniss tornou-se expert no arco e flecha. E é assim, caçando, ao lado de seu amigo Gale Hawthorne (Liam Hemsworth), e trocando o que mata por outros produtos, que Katniss mantém sua casa de pé.

A Capital é um local retrô-futurista cheio de cor e vida, no qual seus habitantes vivem alheios às péssimas condições de vidas dos distritos, retratados como lugares pobres e sujos. As diferenças começam a ficar evidentes quando Effie Trinket (Elizabeth Banks, de "O Virgem de 40 anos", irreconhecível) desembarca no 12º para sortear o tributo local. Afetadíssima, Effie parece não se dar conta de que está escolhendo alguém que rumará para a morte praticamente certa. E o nome sorteado é o de Primrose. Katniss, então, se oferece para ir ao Jogos no lugar da irmã. Seu companheiro de cativeiro será  Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de "Ponte para Terabítia"), filho de um padeiro.


Não fica claro se os habitantes da capital não se importam ou se estão simplesmente acostumados ao fato de que seu principal programa de TV é uma disputa mortal entre adolescentes. O fato é que tudo que está relacionado aos Jogos é tratado como festa, assim como na antiga Roma. A apresentação dos tributos, inclusive, tem um desfile de bigas, no melhor estilo "Ben-Hur". O Pedro Bial dos Jogos é uma celebridade local, vivido por Stanley Tucci ("O Diabo veste Prada").

Todo o preâmbulo que mostra a preparação dos tributos para os Jogos vai nos revelando um pouco mais sobre a disputa em si. É aí que ficamos conhecendo Haymitch Abernathy, personagem de Woody Harelson ("O Povo contra Larry Flint"), que foi um dos dois vencedores dos Jogos pelo 12º distrito, e Cinna, o estilista da equipe, em uma boa participação especial do rockstar Lenny Kravitz. Como todo filme pós-adolescente, claro, um romancezinho também dá as caras no filme. Mas a relação entre Peeta e Katniss está longe da melação de "Crepúsculo", por exemplo. Inclusive a ponto de o filme não deixar claro se trata apenas de estratégia de jogo para atrair simpatia do público e grana dos patrocinadores, ou amor de verdade - o livro, no entanto, é mais claro quanto à questão.

"Jogos Vorazes", cuja continuação não será dirigida por Gary Ross, é um produto maduro. A série de três livros fez muito sucesso e está prestes a ser devorada aqui em casa. Se as duas sequências já existentes mantiverem o nível deste primeiro capítulo, a tendência é estarmos diante de mais um fenômeno, apesar da violência, inteligentemente escondida atrás de uma câmera nervosa, que não mostra as cenas mais sangrentas com clareza. A estratégia fez bem ao filme, que recebeu no Brasil classificação 14 anos. Mas deixa a plateia com um pouco de tontura nas cenas de maior ação - nada que comprometa a diversão de um filme de ação bastante competente para seu gênero.


Há quatro semanas "Jogos Vorazes" lidera as bilheterias dos EUA, superando todas as estreias que vieram depois. O último filme a conseguir tal feito foi nada menos que "Avatar", maior bilheteria de todos os tempos nos EUA e Canadá, de acordo com o Hollywood.com, um dos principais analistas da indústria, com arrecadação de 760 milhões de dólares só na América do Norte. "Jogos Vorazes", segundo a agência Reuters, já amealhou US$ 337 milhões por lá desde 23 de março, quando estreou. No Brasil, o filme de Gary Ross já foi visto por 1,4 milhão de pessoas, até 6 de abril de 2012.

*Crítica escrita em parceria com a jornalista Mayara Munhoz
"Jogos Vorazes" aposta na tensão para se tornar grande franquia pós-adolescente "Jogos Vorazes" aposta na tensão para se tornar grande franquia pós-adolescente Reviewed by Diego Iwata Lima on 12:17 Rating: 5

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