O premiado "A Separação" deveria se chamar "O Irã"


"A Separação" entrega tudo que se espera de um filme iraniano. Mas o diretor e roteirista Ashgar Fahradi soube ainda dosar elementos suficientes do cinema ocidental, tais como planos mais curtos e um roteiro mais enxuto e linear, para que o filme se tornasse mais digerível pelas plateias do lado de cá do globo.

O resultado, além de ampliar a atenção para uma das escolas de cinema mais artisticamente belas da atualidade, foram o Oscar de melhor filme estrangeiro, o prêmio César e o Urso de Ouro em Berlim, em 2012. Foi o primeiro Oscar concedido ao país de tantos cineastas fantásticos como Bahman Ghobadi, Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi, entre tantos outros.

Como eu já havia citado na crítica de "As Flores de Kirkuk", a experiência de se assistir a um filme do Irã e adjacências transcende a apreciação da trama presente no roteiro. O contato com um filme de uma cultura tão diferente da ocidental quanto a iraniana possibilita ao espectador imergir em outro mundo. E tal imersão abarca diversos pontos. A começar pelo contato com os aspectos cotidianos desses países, como o estranhamento causada pela língua falada pelos atores e os figurinos, que nada mais são do que as roupas verdadeiramente usadas pelas pessoas.


Mas a imersão também chega ao estranhamento de detalhes técnicos, tais como as escolhas de enquadramento e as durações dos planos, por exemplo, ainda que não percebamos. Em resumo, a
plateia sempre sabe estar assistindo a algo diferente do convencional quando diante de um filme iraniano. Por fim, claro, causa estranheza a maneira como a lógica e a retórica da sociedades iraniana difere daquilo que as nações ocidentais entendem como Justiça e até mesmo ética.

No livro "O Novo Cinema Iraniano - Uma Intervenção Social", a autora Alessandra Meleiro enfatiza que  mais do que no cinema de outros países, os filmes rodados no Irã tem um importante caráter de ferramenta social. Ao menos a parcela que chega ao Ocidente por meio dos festivais e circuitos alternativos, dado que muito pouco do que é filmado por lá desembarca no Brasil.


O título do drama de suspense de Farhradi, "A Separação", faz alusão ao pedido de divórcio de Simin (Leila Hatami, Urso de Ouro de melhor atriz) ao seu marido Nader ((Peyman Maadi). Simin precisa da permissão do marido para se mudar para o exterior com a filha Termeh (Sarina Farhadi). A despeito de já ter conseguido valioso o visto de saída do país, Simin não pode deixar o Irã com a filha sem a permissão do marido, que desiste da viagem para cuidar do pai, enfermo do Mal de Alzheimer. Para poder então tirar sua filha do labirinto iraniano, Simin precisa se divorciar.

Em uma análise imediata, o título parece adequado. Afinal, existe mesmo a impressão de que é o pedido de separação que origina o conflito central do filme. Mas não. O filme deveria se chamar "O Irã". A origem das questões enfrentadas pelos personagens do longa é o próprio país, seu sistema de governo baseado e regulado por preceitos islâmicos e tudo que decorre dessa particularidade. Com a legitimação do poder religioso como ratificador dos atos do Estado, o Irã é um verdadeiro labirinto em que lógica e religião não param de duelar.

Insatisfeita com a negativa ao pedido de divórcio, Simin decide sair de casa. Com isso, Nader precisa contratar a enfermeira Razieh para cuidar de seu pai (Ali-Ashgar Shahbazi). A entrada de Razieh na vida da família cria uma nova questão. Nader será acusado de um crime que a plateia não sabe com clareza se ele cometeu. Nesse momento entra em cena Hodjat (Shahab Hosseini), marido da enfermeira e grande destaque de atuação do longa.



A tal acusação leva o filme para dentro do burocrático, caótico e religioso sistema judiciário de Teerã. O que amplia a viagem para dentro de uma sociedade tão bizarra aos olhos ocidentais não-iniciados, mas já velha conhecida de quem acompanha o cinema iraniano ou mesmo o noticiário internacional.

Foi o decano critico norte-americano Roger Ebbert, do Chicago Sun-Times quem definiu, ao falar sobre a  "A Separação" que, às vezes, a lei não é adequada para lidar com os sentimentos humanos. Tal afirmação é ainda mais verdadeira no caso dos personagens deste longa. Ainda mais quando os limites da lei são definidos por preceitos religiosos arcaicos e inflexíveis.

"A Separação", indicado também ao Oscar de roteiro original, figura, sem qualquer dúvida, entre os cinco filmes mais imprescindíveis de 2011.
O premiado "A Separação" deveria se chamar "O Irã" O premiado "A Separação" deveria se chamar "O Irã" Reviewed by Diego Iwata Lima on 16:06 Rating: 5

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