"Heleno - O Príncipe Maldito" decifra a alma de uma estrela solitária

Nos dias atuais, o futebol está repleto de "jogadores-problema". Adriano e Ronaldinho Gaúcho são dois exemplos recentes que servem para ilustrar o termo. Mas acredite: ambos podem até ser considerados relativamente tranquilos se comparados a  Heleno de Freitas, interpretado nos cinemas por Rodrigo Santoro. Heleno, genial nos campos, mas genioso demais fora deles, pode ser considerado uma espécie de pai dos jogadores-problema brasileiros, embora tivesse muito mais tesão pela vitória do que a maioria dos boleiros dos dias atuais. E é essa mistura que faz dele um grande personagem.

O filme "Heleno - O Príncipe Maldito" é a cinebiografia de Heleno de Freitas (1920-1959), o maior ídolo da história do Botafogo antes de Garrincha. Mesmo contando a vida de um jogador, o longa não pode ser classificado como um filme de futebol. Trata-se de um drama biográfico rodado em preto e branco que conta uma história envolvente e trágica.

O diretor José Henrique Fonseca (de "O Homem do Ano") certamente não deve ter encontrado muitas dificuldades para transformar o roteiro de "Heleno" em um bom filme. A vida e a carreira do jogador do Botafogo já parecem ter sido vividas para um roteiro de cinema.


Formado em direito e com uma beleza digna de galã de cinema, Heleno de Freitas chegou ao Botafogo em 1937. Em pouco mais de dez anos, em uma época que jogadores passavam mais de uma década em uma mesma equipe, Heleno tornou-se, com méritos, o maior ídolo do clube da estrela solitária, com o recorde impressionante de 209 gols em 235 partidas.


Conhecido pelo seu temperamento difícil, Heleno era um homem de poucos amigos. Com exceção de Alberto (Erom Cordeiro), que ficou ao lado de Heleno até o fim de seus dias, e de seu irmão. Fora das quatro linhas, o craque era um boêmio assumido e um mulherengo incurável. Duas mulheres marcaram sua vida. Uma delas foi a cantora Diamantina (a atriz colombiana Angie Cepeda). A outra foi Silvia (Alinne Moraes), que foi sua esposa e mãe do único filho do jogador - com quem ele pouco conviveu


Heleno morreu por causa de seus dois maiores vícios: as mulheres e o éter, que cheirava constantemente, mesmo no intervalos das partidas, escondido nos vestiários. Foi em uma de suas várias e frequentes transas que Heleno contraiu sífilis, a doença que ele optou por não tratar e que o levaria à loucura e ao trágico fim.

No meio de toda essa tragédia, Heleno ainda vestiu a camisa do Boca Juniors da Argentina, do Vasco da Gama (onde venceu seu único Campeonato Estadual, em 1949), do Atlético Junior de Barranquilla, do Santos e do América. Aliás, quis a ironia do destino que Heleno pisasse o gramado do Maracanã, uma verdadeira obssessão em sua vida, justamente com a camisa do Diabo, onde também encerrou sua carreira. Heleno jogou ainda pela seleção brasileira, onde foi artilheiro do Sul-Americano de 1945, a atual Copa América.

Mas o filme não é só drama e tem algumas boas cenas de humor. A cena em que o treinador do Botafogo pede para Heleno, recém-chegado do Sul-Americano pelo Brasil, conversar com seus companheiros de time sobre a próxima temporada é hilariante.


A fotografia de Walter Carvalho está sensacional. A mistura das tomadas originais dos anos 1950 e dos takes recentes em preto e branco é muito bonita. Aliás, vale o regstro:  filmes em preto e branco deixam as pessoas mais bonitas, não é? Alinne Moraes está assustadoramente perfeita nas telonas.

Mas o principal destaque do longa é mesmo Rodrigo Santoro. O ator precisou perder 12 quilos para intepretar a fase final da vida de Heleno, além de ter aulas de futebol com o ex-jogador Cláudio Adão. Todo o esforço valeu a pena. "Heleno" é certamente uma das melhores atuações da carreira de Santoro, que não precisa mais provar ser é um dos melhores atores brasileiros da atualidade.

Ótimo na fase de Heleno galã e conquistador, Santoro se destaca ainda mais na parte final do longa, quando o jogador, debilitado por causa da doença, fica internado em um hospital psiquiátrico em Barbacena, Minas Gerais. É lá que ele conhece seu último torcedor, o enfermeiro Jorge (Mauricio Tizumba) que nunca chegou a ver Heleno jogar futebol de verdade, mas que aguentou e cuidou do jogador até o fim de seus dias.

"Heleno" não agrada apenas quem gosta de futebol, mas também quem admira uma boa produção e uma grande história. Comigo não foi diferente. O longa me encantou. A garra e a alma do personagem Heleno são incríveis. Poucos jogadores demonstraram tanta gana pela vitória quanto Heleno.


Particularmente, adoraria que os jogadores de hoje tivessem um pouco da alma de Heleno de Freitas, que jogava futebol porque era isso que lhe dava prazer na vida. Amava o Botafogo e pelo clube dava o sangue. Viveu de futebol e para o futebol. No dia em que não pode mais estar dentro das quatro linhas, perdeu a vontade de viver.

Seria muito bom se essa geração milionária de jogadores de futebol da atualidade assistisse a "Heleno". Seria um excelente aprendizado. Os clubes brasileiros deveriam organizar excursões obrigatórias para as salas de cinema.
"Heleno - O Príncipe Maldito" decifra a alma de uma estrela solitária "Heleno - O Príncipe Maldito" decifra a alma de uma estrela solitária Reviewed by Mayara Munhoz on 11:50 Rating: 5

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