Tom doutrinador é calcanhar de aquiles de "Área Q"


"Área Q", que estreia hoje, sexta-feira 13, em cerca de 50 salas de cinemas no Brasil, é ponto fora da curva na recente leva de produção cinematográfica nacional. Bom, é, mas também não é. Porque trata-se de um longa de ficção científica rodado no Brasil, o que já é uma raridade. Mas, ao mesmo tempo, é mais um filme da armada espírita kardecista que já obteve sucesso com "Chico Xavier" e "Nosso Lar", dentre outros, ainda que o diretor Gerson Sanginitto, de "As cartas de Chico Xavier", já tenha declarado detestar o rótulo.

O filme me surpreendeu positivamente em alguns aspectos. Não há requinte, mas a produção é honesta, os efeitos são aceitáveis e o roteiro seguia uma rota até bem coerente para o seu gênero antes de esbarrar em um tom moralista e doutrinador desnecessário - e não há aqui nenhum juízo de valor quanto à mensagem em si, mas sim quanto ao seu uso inadequado no que diz respeito à coerência da obra. Se não chega a estragar o filme, a dose de kardecismo adicionada à trama certamente não presta a ele nenhum serviço artístico.


O elenco é bom, embora o idioma tenha se mostrado uma barreira em alguns momentos. Isiah Washington é o jornalista norte-americano Thomas Mattehws. Principalmente conhecido pela participação na série Grey's Anatomy, Washington também tem na sua filmografia atuações em produções de Spike Lee. Do elenco nacional destacam-se Murilo Rosa e Tania Kalil (linda, mas com certa dificuldade de soar crível em inglês), que vivem personagens-chave na história. Além de Ricardo Conti, o alívio cômico da trama, em boa atuação, livre de tom caricatural e com um respeitável domínio do idioma do presidente Obama.



Pai solteiro, Thomas Matthews é visto como uma lenda da reportagem em seu país. Mas ele cai em descrédito após entrar em parafuso com o sumiço de seu filho durante um simples passeio no parque. A maionese de Matthews desanda de vez quando ele aceita vir ao Brasil fazer uma reportagem na região de Quixadá e Quixeramobim, a tal Área Q (em alusão à famosa área 51 dos EUA), sobre OVNIs e contatos imediatos com extraterrestres. Quando retorna aos EUA falando em abdução, conspiração governamental e assuntos afins, começa a ser encarado como um maluco.


O filme corta então para três anos antes e mostra a saga de Matthews no interior do Ceará. Acompanhado do guia Eliosvaldo (Ricardo Conti), o jornalista começa a investigar os tais fenômenos tidos como sobrenaturais, recorrentes na região. E, como o personagem bíblico de quem empresta o nome (Thomas = Tomé), começa a crer após ver os tais fenômenos de que tanto lhe falaram. Especialmente quando começa a pensar que pode encontrar no Ceará uma explicação para o sumiço de seu filho em Los Angeles.

"Área Q" foi editado com competência e conta com boas ideias, loacações belíssimas e um elenco de apoio afiado. Mas a câmera do diretor Sanginitto nem sempre opta pelas melhores soluções. E, possivelmente devido a restrições orçamentárias, o roteiro, em seu  terço final, começa a atropelar algumas questões importantes. Por outro lado, aprofunda-se em pontos que poderia apenas mencionar, resultando em algumas cenas um tanto vagas.


Nada tenho contra a doutrina Kardecista, muito pelo contrário. Mas creio que se o diretor não quisesse ter seu filme rotulado como espírita, deveria ter optado por uma abordagem mais sutil das mensagens religiosas que transmite. Mesmo assim "Área Q" tem os seus méritos. É, sem dúvida, um filme audacioso.
Tom doutrinador é calcanhar de aquiles de "Área Q" Tom doutrinador é calcanhar de aquiles de "Área Q" Reviewed by Diego Iwata Lima on 10:57 Rating: 5

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