Em "Habemus Papam", o Papa é pop. Mas também é gente

Giovani "Nani" Moretti quase me levou à desidratação, via lágrimas, com o tristíssimo "O Quarto do Filho", vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 2001. O filme é, de fato, muito bom. Mas também é um soco no estômago, daqueles que arrancam lágrimas a fórceps das plateias. Emocionar-se com ele é inescapável. Basta ter coração. Assim, o italiano estava em dívida de risadas comigo. Com "Habemus Papam" (Temos Papa, em Latim), seu mais recente projeto, Moretti quitou parte de seu débito. 

Quem não conhece o diretor, a julgar pelo sobrenome, pode imaginar o longa como um pastelão típico do cinema da Bota. Moretti, no entanto, é mais sutil. "Habemus Papam", também indicado ao prêmio máximo de Cannes, é uma comédia de situação, que humaniza um pouco a igreja católica e seus cardeais com uma situação inédita nos tempos modernos: um papa eleito reluta em assumir o cargo após a tradicional fumaça branca já ter sido emitida das chaminés do Vaticano. 

Cronologicamente, o filme está situado logo após a morte do Papa João Paulo II. O mundo aguarda com expectativa pelo nome do novo líder máximo da Igreja Católica. O filme nos leva para uma recriação do conclave, encontro em que os maiores cardeais católicos são reunidos para escolher seu próprio chefe. Após muita deliberação, o escolhido é o cardeal Melville (Michel Picolli, do canônico "A Bela da Tarde", obra-prima de Luis Buñuel). Mas Melville tem um surto, um ataque de pânico, antes de conseguir se dirigir aos fiéis aglomerados na Praça São Pedro.


Aflito com a situação, o porta-voz do Vaticano (personagem sem nome, vivido por Jerzy Stuhr), começa a elaborar mil maneiras de tentar abafar o ocorrido, ao mesmo tempo em que tenta convencer o Sumo Pontífice a assumir o cargo. Aflito e sem saída, o porta-voz decide, então, adotar uma solução profana e arriscada: convoca um psicanalista (o próprio Moretti, em mais um personagem sem nome) para tentar descobrir o que há de errado com o santo padre. O diretor já vivera um psicanalista em "O Quarto do Filho".


O que se vê dali em diante são diversas situações em que os cardeais se veem confrontados pelo personagem de Moretti. Colocar um psicanalista no meio de um bando de padres é o mesmo que soltar um macaco dentro de uma plantação de bananas. Enquanto isso, o cardeal Mellville segue negando-se a assumir seu cargo, questionando seus próprios desejos. O impasse leva o Vaticano a tomar medidas ainda mais drásticas, que ltrazem situações cada vez mais curiosas e, à primeira vista, absurdas. Uma calma análise, no entanto, leva o espectador até a se questionar: será que algo assim nunca aconteceu na vida real?

Falar mais sobre a trama pode estragar a experiência de quem ainda não viu o filme dirigido com leveza, mas também com precisão, por Moretti. Mas para aguçar a curiosidades dos possíveis leitores deste blog, deixo no ar apenas uma palavra que vai acabar fazendo parte da trama: vôlei. 

Os veteranos atores que representam o grupo de cardeais - Piccoli, por exemplo, tem 87 anos - estão muito engraçados. A direção de arte está de parabéns. A recriação do ambiente interno do Vaticano, montado no Palácio Farnese, também em Roma, merece destaque. Bem como o figurino, detalhista ao extremo.



A patrula do clichê que me perdoe, mas não dá para dizer outra coisa de "Habemus Papam" que não seja a célebre frase: "diverte e faz pensar". Moretti "despe" os cardeais e o próprio Papa da pompa que normalmente os cerca com toques de gênio. É divertido ver também como o diretor brinca com os dogmas sagrados e a infalibilidade dos apóstolos mais diletos do Senhor com um texto sutil e agridoce. De quebra, Moretti também dá as suas estocadas na psicanálise, às vezes tão dogmática e hermética quanto as próprias instituições religiosas. 

Não ri tanto com este filme quanto chorei com "O Quarto do Filho". Mas me senti muito mais leve desta vez quando os créditos começaram a subir na tela. "Habemus Papam" é aquilo que os críticos que falam inglês costumeiramente classificam como um "feel good movie". 
Em "Habemus Papam", o Papa é pop. Mas também é gente Em "Habemus Papam", o Papa é pop. Mas também é gente Reviewed by Diego Iwata Lima on 16:10 Rating: 5

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