Os primórdios do "dérbi" Freud X Jung estão em "Um Método Perigoso"

Uma das primeiras questões que expus à minha psicanalista, ainda durante a entrevista inicial, foi o meu fanatismo pelo Palmeiras. Mais tarde, quando perguntei a ela qual abordagem psicológica seria adotada em meu tratamento, a psicanalista partiu do que eu disse para cravar: "Freud está para mim como o Palmeiras está para você". Achei exagerado. Àquela época, meu apreço pelo Alviverde estava no auge. Com o tempo, descobri que era verdade. Anos depois, eu mesmo comecei uma faculdade de psicologia. Reconfirmei que vários admiradores de Freud têm mesmo fanatismo pelos ensinamentos do austríaco, apesar de muito do que ele disse já ter, respeitosamente, caído em descrédito científico. E se Freud é o Palmeiras, ninguém melhor para personificar o Corinthians do que Carl Gustav Jung.

O início da rixa entre dois dos maiores nomes da história da psicanálise é o argumento central de "Um Método Perigoso", dirigido pelo canadense David Cronemberg ("Marcas da Violência"). O roteiro foi adaptado por Christopher Hampton (vencedor do Oscar por "Desejo e Reparação"), a partir do livro de John Kerr. 

Viggo Mortensen ("Marcas da Violência" e trilogia "O Senhor dos Anéis") é Sigmund Freud. Michael Fassbender ("Bastardos Inglórios") dá vida a um jovem Jung, em início de carreira. O filme mostra como foi que os dois médicos se conheceram. No início do século XX, a fama de Freud já havia se espalhado pela Europa. Interessado em aprofundar seus estudos, Jung entrou em contato com Freud para falar sobre o caso de Sabine Spielrein (Keira Knightley, de "Piratas do Caribe"), uma paciente que descrevia diversos sintomas da patologia que Freud havia catalogado como a clássica "histeria."


A primeira conversa entre Jung e Freud, em Viena, durou 13 horas ininterruptas. Tempo suficiente para ambos descobrirem uma admiração mútua e para Freud apontar Jung como o herdeiro de suas teorias. E assim, foi por um tempo. Juntos, eles, inclusive introduziram a psicanálise nos Estados Unidos. Aos poucos, porém, algumas diferenças de ponto de vista, não apenas científico, fizeram com que os médicos se distanciassem, estabelecendo uma grande cisão numa ciência então nascente. Não cabe aqui a explicação detalhada sobre as divergências científicas dos mestres. Resumindo, no entanto, pode-se dizer que Freud estava satisfeito com as descobertas sobre as razões dos traumas que originam os distúrbios psicológicos. Já Jung, até por razões pessoais, queria ir um passo adiante, um algo mais. Mortensen, indicado ao Globo de Ouro por este trabalho, está muito bem na pele de Freud. Capturou a lendária empáfia do austríaco e transmite um ar de superioridade constante.



Fassbender também se destaca na pele de um Jung ainda muito jovem e um tanto titubeante sobre suas próprias convicções. Mas quem realmente brilha é Keira Knightley. Sua interperatação de Sabine, durante os diversos estágios da patologia, sobressai. Além do evidente esforço físico demandado pelo papel, há algo no olhar da atriz que se altera sutilmente à medida que o roteiro se desenrola. O fato de Keira não ter recebido nenhuma indicação a um grande prêmio de atuação é uma injustiça. A pequena participação de Vincent Cassel também vale um destaque.


Além de Knightley, a fotografia e a direção de arte do filme merecem destaque. "Um Método Perigoso", de um modo geral, é um filme interessante, mas de difícil compreensão para os não-iniciados no assunto. O ritmo também é um pouco lento, característico de outras obras de Cronemberg, como "Spider", de 2002 - o que também não ajuda muito aqueles que não conhecem o assunto. De qualquer maneira, vale como boa recriação histórica dos primórdios de uma ciência que, há mais de um século, mudou a maneira de a humanidade encarar a si mesma.

O início de Freud

De certo modo, "Um Método Perigoso" é uma espécie de continuação de "Freud - Além da Alma" (1962), de James Huston. O primeiro tratamento deste roteiro, indicado ao Oscar, teve a assinatura de ninguém menos que Jean-Paul Sartre. No longa, que mostra o início da carreira de Freud como psicanalista, coube a Montgomery Clift interpretar os primeiros passos do austríaco na busca de tentar entender um pouco melhor o inconsciente humano. É curioso ver como o longa de Huston, disponível em DVD no Brasil, mostra a psicanálise quase como uma questão mística e sobrenatural. Tratas-se, assim mesmo, de um clássico bastante esclarecedor sobre as fundações da teoria psicanalítica. Veja abaixo um trecho do filme. Bom exemplo do tom misterioso adotado por Huston para contar a história.


Os primórdios do "dérbi" Freud X Jung estão em "Um Método Perigoso" Os primórdios do "dérbi" Freud X Jung estão em "Um Método Perigoso" Reviewed by Diego Iwata Lima on 17:40 Rating: 5

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