Com ótimo roteiro, Polanski e elenco estelar brilham em comédia ácida

Crianças batem umas nas outras. Se você já foi uma criança, sabe bem disso. Não é bonito, não deve ser incentivado, mas acontece. Precisa ser observado com mais cuidado apenas se for algo sistemático e virar perseguição, o tal bullying. Mas se acontece uma vez ou outra, não deve causar pânico em ninguém. Muito menos nos pais. Pai e mãe resolvendo assunto de criança, normalmente, fazem tudo errado. Exatamente porque começam a agir como crianças.


"Deus da Carnificina", mais recente projeto de Roman Polanski, parte da premissa que menciono acima para entregar uma comédia ácida e memorável. A começar pela ousada proposta artística. O longa foi adaptado de uma peça de teatro escrita pela francesa Yasmine Reza, em 2008. Mais do que isso, foi rodado em um plano-sequência de 80 minutos - exceto pelas duas cenas externas que abrem e finalizam o filme. A direção de arte caprichou no apartamento que serve de locação exclusiva e que, pouco a pouco, vai ficando sufocante graças a uma sucessão de acontecimentos que formam uma bola de neve.

Um projeto assim precisa de gente graúda no elenco, para funcionar. Polanski, nada trouxa, juntou nada menos que quatro Oscars de atuação - além de oito indicações. O time vale o preço de seus salários, que certamente tomaram a maior parte dos 25 milhões de dólares gastos para fazer o filme. E a julgar pelo prestígio e qualidade do trabalho do elenco, a conta saiu barata.



Jodie Foster ("O Silêncio dos Inocentes"), Kate Winslet ("Titanic"), Christoph Waltz ("Bastardos
Inglórios") e John C. Reilly ("Chicago") vivem o quarteto que começa conversando cordialmente sobre uma briga de duas crianças de onze anos, mas que, gradativamente, desvia o rumo e tom da conversa para paisagens bem menos pacíficas. A tensão causada pela hipocrisia na conversa entre os casais deixa, já nos minutos iniciais do filme, sinais de que a calmaria do encontro civilizado vai durar pouco.


Jodie Foster e John C. Reily são Penelope e Michael Longstreet, pais do garoto que perdeu dois dentes em um briga em um parque. Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph) são os pais do agressor. Ao menos, esse é o termo usado por Penelope para descrevê-lo, que desde o começo soa exagerado para Nancy e Alan. De pequenos desentendimentos para uma briga maior, tudo parece ser questão de tempo.

A adaptação da peça para o cinema funciona muito bem. O timing das atuações é impecável. Jodie Foster está irritantemente irrepreensível como uma pseudo-liberal de esquerda, que tenta ser politicamente correta o tempo todo. John C. Reilly, com sua cara extremamente comum, faz bem o papel de marido de classe média. Winslet, com sua beleza clássica encaixa-se bem como a (segunda) esposa troféu de um advogado de uma empresa farmacêutica. E Christoph Waltz... bem, o cara nasceu para encarnar os tipos mais detestáveis do mundo. Ponto para ele, mais uma vez.




O longa é tão diferente do que vem sendo exibido e produzido atualmente que fica até difícil fazer uma avaliação sob o ponto de vista da crítica cinematográfica. Um crítico de teatro certamente tem mais elementos para avaliar o filme, dada a sua natureza. O que dá para dizer sem medo é o que o filme é delicioso de se assistir, com diálogos bem afiados. E que problemas pessoais à parte, o polaco Polanski segue sem perder a mão, com uma direção firme. 

"Deus da Carnificina" foi indicado a dois Globos de Ouro, para as atrizes. Com mérito, o filme levou também o César ("Oscar" francês) de melhor roteiro adaptado, categoria em que merecia ao menos ser lembrado pela Academia. E Polanski, indicado ao Leão de Ouro em Veneza, ficou apenas com o "pequeno" Leão, uma espécie de menção honrosa.
Com ótimo roteiro, Polanski e elenco estelar brilham em comédia ácida Com ótimo roteiro, Polanski e elenco estelar brilham em comédia ácida Reviewed by Diego Iwata Lima on 18:10 Rating: 5

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