Seth Rogen e Joseph Gordon-Levitt dão alma à comédia "bromântica" "50%"

Todo homem sempre tem pelo menos um melhor amigo. Aquele camarada - ou brother, ou qualquer outra gíria ridícula e ultrapassada, que você já é velho para usar, mas não abandona - com quem você tem mais intimidade e uma relação quase irrestrita de confiança e confidencialidade. Esse(s) “brother(s)” podem ser do trabalho, faculdade, prédio, clube, infância, bar. Sua mulher, ou namorada, provavelmente, tem ciúme desse cara (não é verdade, meninas?). Tem gente que acha, acredite, que vocês têm um caso. E, no fundo, vocês têm. Um caso de amor intenso, leal e heterossexual. Um “Bromance”. 

Bromance é a junção de “bro”, corruptela de brother, que os falantes de inglês também usam no sentido de “amigo”, com “romance”. A Wikipédia define o termo cunhado no início dos anos 90 como “um relacionamento íntimo, mas não-sexual, entre dois (ou mais) homens”.

De uns tempos para cá, muitas histórias assim têm sido contadas na forma de excelentes e inteligentes "comédias bromânticas". “Superbad” de 2007, por exemplo, já se tornou um clássico – e não apenas do gênero. “Ligeiramente Grávidos”, “Eu te amo, Cara”, “O Virgem de 40 anos”, “Segurando as Pontas”, “Tá Rindo do Que?” e outros têm pitadas dessa mesma essência – e não é de graça. Além das piadas com referências pop e a apologia do consumo recreativo do “cigarrinho de artista”, aquele judeu alto, meio ruivo, desengonçado e de voz grossa também bate ponto em quase todos esses filmes.

Seth Rogen é uma espécie de sumo-sacerdote do gênero. Escreveu “Superbad” em parceria com Evan Goldberg quando eles eram ainda adolescentes. E personifica como poucos o papel do melhor amigo. Na tocante comédia dramática “50%”, já disponível em Blu-ray e DVD no Brasil, que co-estrela com Joseph Gordon-Levitt, Rogen emociona e diverte. Especialmente porque o filme, dirigido com precisão pelo quase iniciante Jonathan Levine, é inspirado em uma história verdadeira. A de Will Reiser, roterista do filme, um dos melhores amigos de Seth Rogen, que combateu um câncer. E pode crer: o filme é engraçado.




Levitt é Adam, uma espécie de cara mais legal do mundo, papel muito semelhante ao que ele interpretou em “(500) dias com ela”. Rogen é Kyle, além de melhor amigo, colega de trabalho de Adam em uma estação de rádio na qual são produtores. Kyle é um cara espaçoso, folgado e um tanto egocêntrico. Mas muito leal. Quando Adam descobre que suas dores nas costas são, na verdade, um tipo raro de câncer, com apenas 50% de chance de cura (olha o título aí), o amigo chega a se sentir mal e sofrer quase tanto quanto a mãe de Adam (Anjelica Huston, ótima). Competir com amor de mãe é um pouco demais, claro. Mas Kyle certamente sente o baque com mais intensidade que Rachel, a namorada de Adam (Bryce Dallas-Howard, de "Histórias Cruzadas").

Para lidar com a doença, Adam acaba consultando uma jovem psicóloga inexperiente, vivida com competência pela também jovem e cada vez melhor Anna Kendrick, indicada ao Oscar por “Amor sem Escalas”  - e também Jessica, melhor amiga de Bella, na saga "Crepúsculo". Kendrik sabe encarnar aquele tipo de garota comum, sem nenhum grande atrativo físico, mas que transmite uma doçura reconfortante. Adam, mesmo com as trapalhadas da jovem terapeuta, apercebe-se dessa característica e dela se beneficia.


Indicado a dois Globos de Ouro (ator para Levitt e melhor filme comédia ou musical), “50%” trata com leveza um tema difícil. Como quase tudo nesses tempos em que o politicamente correto vai sendo limado de alguns nichos intelectuais mais jovens e informais, a sacralizada e estigmatizada luta contra o câncer, um eterno tabu, é encarada como mundana e natural. Claro, há as cenas tristes, porque a doença não é brincadeira. Mas o filme evita, por exemplo, ser piegas ou deprimente. Emociona e faz rir de maneira natural, sem forçação de barra. Também não busca ser redentor ou edificante, ao contrário do pouco sutil, embora bonito, “Pronta para amar” com Kate Hudson.

Os homens que assistem ao filme dificilmente escapam das lembranças sobre seus melhores amigos. Ainda mais quando sobe o som de algumas canções da boa trilha sonora, como "High And Dry", do Radiohead, ou "Crying", do Roy Orbinson. Colocar-se no lugar dos protagonistas é algo que vem fácil, fácil. O que torna o filme ainda mais gostoso de se assistir. Apesar do alto risco de precipitação de lágrimas.

Outros Bromances

“The Odd Couple" (“O Estranho Casal”) é considerado o maior de todos os bromances de Hollywood, Broadway e adjacências. Nascida peça de teatro de Neil Simon, em 1965, a história teve muitas versões. Mas entrou mesmo para a história com o filme estrelado por  Jack Lemmon e Walther Matthau, de 1968, indicado ao Oscar de melhor roteiro. “Butch Cassidy and the Sundance Kid”, com Paul Newman e Robert Redford, em 1969, também é outra figurinha carimbada em listas de melhores.

Mais recentemente, Joey e Chandler, de "Friends", são um bom exemplo de casal bromântico. Há ainda Greg & Wilson ("House") - inspirados nos bromânticos Sherlock Holmes & Watson -, Cameron & Ferris ("Curtindo a Vida Adoidado"), J.D. & Turk (“Scrubs”), Lenny & Carl (“Os Simpsons”), Chris & Greg (“Everybody Hates Chris”), “Jerry & George” ("Seinfeld") - e até os pouco ortodoxos Karen & Rosário e Will & Grace, da série de TV homônima, por que não? A lista é virtualmente infinita.
Seth Rogen e Joseph Gordon-Levitt dão alma à comédia "bromântica" "50%" Seth Rogen e Joseph Gordon-Levitt dão alma à comédia "bromântica" "50%" Reviewed by Diego Iwata Lima on 21:00 Rating: 5

2 comentários:

lully disse...

Eu achei bem estranho que esse filme não tenha ido pro cinema, porque é uma história vendável, com atores bons e conhecidos... Pra mim, é um mistério. Descobri pelas indicações do IMDB, enquanto fazia pesquisa lá :)

Diego Iwata Lima disse...

A concorrência por salas de cinema aqui anda muito selvagem. Por isso alguns filmes acabam perdendo a briga para os blockbusters e filmes alternativos. Uma pena...

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