Triste e delicado, "Norwegian Wood" é fiel ao best-seller de Haruki Murakami

"I once had a girl, or should I say, she once had me." - Lennon & McCartney, em trecho da canção Norwegian Wood do álbum "Rubber Soul", de 1965.

Haruki Murakami foi uma das melhores descobertas dos meus pouco mais de 30 anos. "Norwegian Wood", livro de 1987, indicado a mim quase ao acaso pelo amigo Fabio Ximenez, colocou-me em contato com um mundo inspirador e muito diferente, em termos estilísticos e temáticos, de tudo que eu já havia lido. Após a leitura do romance, considerado obra fundamental da literatura japonesa moderna, livro mais vendido da história no Japão, meu paladar literário nunca mais foi o mesmo.

Por sorte, conheci Murakami a partir de sua obra-prima. De lá para cá, seis livros do autor já foram para a minha cabeceira. Em todos, sempre o mesmo gosto de novidade, os mesmos elementos fantásticos, mas ao mesmo tempo tão palpáveis, com o perdão do clichê. Nenhum, no entanto, teve o mesmo sabor de "Norwegian Wood". Talvez porque a primeira vez acabe mesmo sendo a mais marcante. Talvez pelo fato de eu saber que este livro tem pitadas autobiográficas. Ou, simplesmente, porque este é, de fato, a maior obra do escritor japonês.

Foi ainda em meados de 2010 que ouvi os primeiros rumores de que o romance iria se tornar um filme. Desde essa época, aguardo com ansiedade seu lançamento no Brasil, nem que fosse apenas em um circuito de arte, ou até mesmo na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival do Rio, ou evento semelhante. Mas "Norwegian Wood", lançado no Japão em dezembro de 2010, nunca veio para as telas daqui. Nem mesmo a indicação ao Leão de Ouro no Festival de Veneza foi suficiente para convencer algum distribuidor nacional acerca da relevância da obra. Assim, foi só mesmo após muito procura em sites de download, pela inexistência de outra possibilidade, que consegui assistir ao longa, dias atrás. Valeu cada minuto da longa espera.

O filme "Norwegian Wood", do franco-vietnamita Tran Anh Hung, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e diretor dos cultuados "O Cheiro do Papaia Verde" e "Luzes de um Verão", é bastante fiel ao livro. Hung foi hábil para manter o mesmo tom melancólico e elegantemente triste que habita cada página do romance de Murakami. Os título da obra faz referência à linda música homônima dos Beatles. O cenário é o Japão do final dos anos 60, começo da década de 70.

Toru Watanabe (Ken'ichi Matsuyama) é um estudante residente nos dormitórios coletivos de uma universidade de Tóquio. Marcado pelo suicídio de Kizuki (Kengo Kôra), seu melhor amigo, Toru começa a se afeiçoar por Naoko (Rinko Kikuchi de "Babel"), namorada do jovem suicida, com quem também convivera bastante antes da tragédia. Obviamente, o suicídio de Kizuki deixou marcas em ambos. Naoko, por exemplo, desenvolveu uma pesada depressão.



À medida que se tornam mais íntimos, Toru e Naoko parecem estar sempre incertos sobre a legitimidade do romance que vivem de maneira relutante. Ao mesmo tempo em que sinalizam temer uma espécie de traição póstuma a Kizuki, ao ficarem juntos, os jovens também parecem experimentar um sentimento de obrigatoriedade, como se devessem à memória de Kizuki ao menos tentarem se relacionar. Para complicar o que já não e fácil, Toru também despertou o interesse da radiante Midori (Kiko Mizuhara), uma garota atirada e atraente, contraponto à personalidade retraída e depressiva de Naoko.

Ao longo da trama, Toru Watanabe muitas vezes comporta-se como uma espécie de versão japonesa de Mersault, personagem de "O Estrangeiro", obra do existencialista Albert Camus. Calado, inerte, o protagonista parece apenas flanar por entre os diversos acontecimentos de sua vida, como se estivesse anestesiado. Embora os atos demonstrem que Toru possui desejos e senso crítico diante daquilo que o cerca, ele raramente mostra qualquer paixão ou excitação em seus gestos.

Com luz e fotografia belíssimas, o característico ritmo do cinema de arte asiático e boas atuações, "Norwegian Wood" é um filme triste. Em especial porque algumas passagens mais alegres retratadas no livro - como as histórias de Storm Trooper, colega de quarto de Toru, alívio cômico da trama - tiveram de ficar fora, para que o filme não se tornasse longo demais. Mesmo assim, Tran Ahn Hung não conseguiu uma edição das mais dinâmicas, fazendo com que a trama ficasse arrastada em alguns momentos - característica comum também a alguns livros do escritor. Nada, no entanto, que comprometa um filme bonito, delicado e muito bem realizado.



Além da indicação ao Leão de Ouro, "Norwegian Wood" foi premiado em diversos festivais asiáticos. Nenhum prêmio, porém, supera o mérito de ter conseguido traduzir em imagens toda a suavidade e poesia da obra de Haruki Murakami. É uma pena que poucas pessoas terão acesso ao longa no Brasil. Apesar das dificuldades, recomendo a todos tentarem assistí-lo. Se não for possível, ao menos tentem ler este ou outro livro de Haruki Murakami, lançados por aqui pela editora Alfaguara. Um escritor original e extremamente habilidoso na arte de transformar sentimentos em páginas memoráveis.

Veja o trailer abaixo, com legendas em inglês:


Triste e delicado, "Norwegian Wood" é fiel ao best-seller de Haruki Murakami Triste e delicado, "Norwegian Wood" é fiel ao best-seller de Haruki Murakami Reviewed by Diego Iwata Lima on 13:39 Rating: 5

Um comentário:

Anônimo disse...

acabei de ler o livro. o filme eu vi no canal max da hbo.
os dois são bons, recomendados para pessoas sensíveis e contemplativas como eu.
a grande maioria vai achar tudo [filme e livro] 'meio parado' ou 'arrastado', mas eu gosto assim.
filme de ação me dá sono, livro trepidante me dá tontura.
comprei o filme no youtube e estou revendo sem parar, tamanha paixão pelas imagens poderosas de tran anh hung.
e o livro é simplesmente obrigatório para quem já foi um adolescente melancólico um dia.

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