Elenco é o melhor do irregular "360", de Fernando Meirelles

A premissa de "360" não é original. Mas isso não condena, imediatamente, o mais novo filme de Fernando Meirelles, em cartaz no Brasil desde 17 de agosto de 2012. Até porque o roteiro de Peter Morgan ("Frost/Nixon") tem como base a peça "Ronda", de Arthur Schnitzler (cuja obra também inspirou "De olhos bem fechado", de Stanley Kubrick). É importante pontuar desde o início desta crítica, porém, que "360" tem bons e maus momentos. Característica recorrente aos filmes que, como ele, mostram diversas histórias de alguma forma interligadas. A nova obra do brasileiro indicado ao Oscar por "Cidade de Deus", oscila de acordo com o fragmento que está sendo mostrado. 

Diferentemente de "Ensaio sobre a cegueira", "360" é um projeto para o qual Meirelles foi contratado. Assim, como já ocorrera em "O Jardineiro Fiel". Por isso também, falta um pouco da pegada do brasileiro ao longo do filme. Mas Meirelles consegue bons momentos, calcado na variação de estilo de atuação do bom elenco que o diretor de casting Leo Davis conseguiu reunir.

De Anthony Hopkins a Maria Flor, as diferenças de nacionalidade e background dão um tempero interessante à trama. Não há dúvida que o grande destaque de "360" é o seu elenco, menos pelas performances alcançadas do que por sua formação muita rica e diversificada. As locações também foram muito bem escolhidas. A fotografia de Adriano Goldman (do lindo "O Ano em que meus pais saíram de férias"), merece destaque. Assim como o bom trabalho dos diferentes diretores de arte e a edição do velho parceiro de Meirelles, Daniel Rezende.

O leque de personagens de "360" é amplo. Temos as irmãs Mirka e Anna (Gabriela Marcinkova), que viajam da Áustria para a Eslováquia para que Mirka (Lucia Siposová), a mais velha, possa se prostituir longe dos olhares dos pais. Temos a editora de uma revista londrina (Rachel Weizs) envolvida com o fotógrafo brasileiro Rui (Juliano Cazarré). Há o executivo viajante vivido por Jude Law, sempre distante da própria esposa. O capanga de uma mafioso russo desiludido. O dentista argelino apaixonado que mora na frança, de Jamel Debbouze (de "O Fabuloso destino de Amelié Poulain"). O pai inglês desesperado (Anthony Hopkins). A garota brasileira de coração partido (Maria Flor). O agressor sexual norte-americano em fase de regenaração (Ben Foster). E as diferentes histórias se cruzam, a maioria delas tendo a traição como tema central, mostrando que, enfim, o mundo dá voltas e cai no mesmo lugar - como o filme, didaticamente, até desenha para explicar. E este é o maior problema do longa.





A sabedoria popular diz que não há nada mais chato do que explicação de piada. Filmes se autoexplicando - exceto em casos de tramas de super-heróis e de "golpes", como "Onze Homens e Um Segredo" ou "Vigaristas", por exemplo - também são difíceis de engolir. E em "360", à medida que as conexões entre os personagens, bem como as consequências dos atos de cada um, vão se enroscando, o filme só falta inserir uma seta na tela para guiar a plateia. Dá para imaginar o Meirelles sentado ao lado do espectador, na sala de cinema, dando cotoveladas, como quem diz "Pegou? Entendeu? Entendeu?".

 O recurso, compreensível em um filme com várias histórias - o que não permite profundidade a nenhuma delas - tenta, mas não consegue, afastar a sensação de que o roteiro tem algumas soluções simples demais. 
Se você assistiu a "Babel", vai ficar com a sensação de já "vi isso em algum lugar" quando assistir a "360". E, para azar de Meirelles, o filme do mexicano Alejandro Gonzales Iñarritu é uma obra mais bem resolvida e melhor amarrada. A sensação de "Efeito Borboleta", de que tudo está, de alguma forma, conectado, independentemente da geografia, também aparece

Se um filme não traz nada de novo, espera-se que, ao menos, consiga contar mais do mesmo de uma maneira diferente. Mas não é isso que ocorre. Meirelles tem uma mão boa para fazer filmes bonitos, com grandes imagens. Mas, como já se sabe, uma embalagem linda não carrega, necessariamente, um grande produto. E "360" para mesmo no quase.




Ah, então o filme é ruim? Longe disso. É um filme acima da média, a começar pelo calibre do elenco. É muito bacana para quem torce para a afirmação do cinema brasileiro e dos profissionais que o fazem ver a Maria Flor, por exemplo, contracenar com desenvoltura com um cara como o Anthony Hopkins. Ou o excelente Juliano Cazarré (o Adauto da novela "Avenida Brasil") atuar de igual para igual com a Rachel Weisz, dona de um Oscar de melhor atriz coadjuvante por "O Jardineiro Fiel", também de Meirelles. Isso sem falar dos atores menos conhecidos do Leste Europeu, em boas performances. E todos dirigidos pelo Fernando Meirelles. 




É legal ver que o prestígio do diretor brasileiro chegou ao ponto em que reunir tanta gente graúda para um projeto em torno de seu nome tornou-se algo tão natural. "360" estreou em Toronto com críticas mistas e foi lançado em pouquíssimas salas nos cinemas norte-americanos. Uma pena. Porque o filme pode não ser um primor ou garantia de sucesso comercial. Mas tem seus atrativos. Resta torcer para que o relativo insucesso de "360" não atrapalhe a evolução da carreira internacional do diretor. 
  
Veja o Trailer:


Elenco é o melhor do irregular "360", de Fernando Meirelles Elenco é o melhor do irregular "360", de Fernando Meirelles Reviewed by Diego Iwata Lima on 10:40 Rating: 5

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