"Ted" leva a acidez do criador de "Family Guy" para o cinema

É com a mesma pegada ácida de "Family Guy" ("Uma Família da Pesada"), série de animação criada por ele em 1999, que Seth McFarlane estreia como diretor de cinema com "Ted", em cartaz no Brasil desde 21 de setembro de 2012. Bebendo em sua própria fonte, McFarlane leva às telas a história do garoto que cresce com um urso de pelúcia falante como melhor amigo. Ok, a premissa parece idiota e nonsense. E não apenas parece, como, de fato, o é. Mas quem viu um episódio de "Family Guy" que seja, e gostou do que assistiu, sabe que isso está longe de ser um problema.

John (Mark Wahlberg, de "Os Infiltrados" e "O Vencedor") é um garoto sem amigos que ganha um urso de pelúcia no Natal de seus oitos anos de idade - o que apenas reforça a tendência dele a ser um alvo preferencial para socos dos outros meninos. Mas John não se importa. Feliz com o presente, o garoto faz de Ted (voz do próprio McFarlane) um substituto para os amigos que não tem, desde o primeiro minuto em que o tira do embrulho de presente. E deseja tão fortemente que o urso ganhe vida que, voilá, uma estrela cadente lhe concede o pedido.E a amizade apenas se solidifica, ao ponto de ambos jurarem que jamais vão deixar de estar juntos. E assim nasce um "bromance".

Bromance é a junção de “bro”, corruptela de brother, que os falantes de inglês também usam no sentido de “amigo”, com “romance”. A Wikipédia define o termo cunhado no início dos anos 90 como “amizade ou relacionamento íntimo, mas não-sexual, entre dois (ou mais) homens”


O mais engraçado da situação vista em "Ted" é que, em vez de guardar o urso para si, John e sua família decidem dividir o brinquedo vivo e falante com o mundo. Ted torna-se uma celebridade.Aparece em capas de revistas, vai a talk shows, estrela campanhas publicitárias e tudo mais que as celebridades instantâneas são instadas a fazer. Mas, como acontece com todas as celebridades, Ted vê sua fama decair com o passar do tempo, como um ex-BBB de quem ninguém mais se lembra. E é aí que o filme de McFarlane decola.

Em "Family Guy", Peter Griffin tem no cachorro Brian, cuja voz também é de McFarlane o seu melhor amigo. Brian, um beagle inteiro branco, é, inclusive, muito mais inteligente e refinado que o seu dono. Já Ted é praticamente uma "pessoa normal": fuma, bebe, gosta de sexo, enfim, um "cara" como qualquer outro. Exceto pelo fato de ter um metro de altura e ser um urso de pelúcia (!) - muito bem concebido por efeitos especiais, vale dizer. 



John tem como namorada Lori (Mila Kunis, que faz a voz de Meg em “Family Guy”). Lori é maluca pelo seu namorado, que, afinal, é "o cara mais gato da cidade", como ela diz às amigas. Mas Lori é uma bem-sucedida vice-presidente de empresa, assediada constantemente por seu patrão e herdeiro da empresa, Rex (Joe McHale, de "Community", excelente). Já John, bem, é um funcionário de uma locadora de carros de 35 anos que passa a maior parte de seu tempo livre fumando maconha e assistindo TV - com predileção pelo genialmente cafona "Flash Gordon" - com um urso de pelúcia falante. Claro que, aos poucos, isso começa a irritá-la. E Lori começa a ver Ted como uma ameaça para o amadurecimento do namorado.

Você deve estar pensando: "eu já vi esse filme antes". E já viu mesmo. Mas não com um roteiro de Seth McFarlane e suas milhares de referências da cultura pop. A começar pelo fato de o amigo, neste caso, ser um urso de pelúcia. O arsenal de piadas politicamente incorretas do autor e diretor é vasto, rápido e certeiro. E emocionante, pasmem. Quem não chorar ao se lembrar do seu brinquedo de infância, vai certamente se recordar daquele amigo com o qual alguma namorada implicou. E, que no fundo, era mais importante para você que aquela garota que você nem sabe onde está. O filme também serve como recado para noivas, namoradas e esposas: deixem seus homens terem um amigo ao lado de quem ele se torna um idiota. Poucas coisas deixam um cara mais feliz do que poder ser idiota ao lado de seu melhor amigo.



Desde seu surgimento, "Family Guy" é acusado de ser um plágio de "Os Simpsons". E é verdade. Quem diz isso só esquece de se lembra que comédias de famílias são algo muito antigo na televisão norte-americana e, por consquência, mundial. "Married Wih Children" (Um Amor de Família), "Família Do-Ré-Mi","Flintstones","Jetsons", "Família Dinossauros" e tantos outros estão aí para comprovar. Não dá para negar que "Family Guy" encontrou um cenário bem mais propício para se estabelecer depois de Matt Groening e seus personagens amarelos já terem delineado um terreno para tal. Mas o trabalho de McFarlane apenas mostra que não é só a receita, mas sim o resultado final, que define o sucesso de algo.

Além de McFarlane, Mila Kunis. Joe McHale e Mark Wahlberg, o longa tem boas participações de Giovanni Ribisi, Patrik Warburton (o eterno Puddy", de "Seinfeld"), Norah Jones, como ela mesma, além de Alex Borstein, que faz a voz de Lois, em "Family Guy"). Aliás, vale destacar o bom trabalho de todo o elenco, que fez parecer natural o relacionamento dos personagens com o urso de pelúcia.

"Ted" é muito engraçado, mas demanda que o espectador desligue a parte do cérebro que busca por corência, ou sentido, para ser apreendido. É preciso aceitar, afinal, que um urso de pelúcia pode falar e viver como um ser normal. Se você conseguir fazer isso, creia, vai certamente dar boas risadas com uma comédia muito inteligente e fora do convencional.

E eu sempre quis ter um Teddy Ruxpin!

"Ted" leva a acidez do criador de "Family Guy" para o cinema "Ted" leva a acidez do criador de "Family Guy" para o cinema Reviewed by Diego Iwata Lima on 15:12 Rating: 5

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