"Intocáveis" é excelente porque não tenta sê-lo

A Academia de cinema do EUA divulgou, em 8 de outubro de 2012, a lista com os 71 filmes pré-selecionados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira para 2013. Mas, a não ser que Harvey Weinstein consiga emplacar o lobby para que o francês "Intocáveis" (Intouchables) seja indicado como Melhor Filme, os cinco selecionados  - incluindo, talvez, o brasileiro "O Palhaço" - não terão muito a fazer no Dolby Theater (ex-Kodak Theater), em 24 de fevereiro do ano que vem. Eric Toledano e Olivier Nakache, diretores e roteiristas do longa francês, já podem começar a arrumar espaço em suas estantes e trabalhar no esboço de seus discursos de agradecimento. De mãos vazias, eles não saem.

"Intocáveis" não é só uma engraçada comédia dramática com excelente roteiro e uma dupla de protagonistas muito bem afinada. Trata-se de um dos filmes mais gostosos de se assistir dos últimos tempos. E o que o torna ainda melhor é o fato de ele ter sido inspirado por uma história real. Assim, o elemento de plausibilidade, calcanhar-de-aquiles  da maior parte dos "feel good movies", fica preenchido logo de cara.

Philippe (François Cluzet) é um milionário parisiense. Tetraplégico após um acidente, Philippe tornou-se um tanto amargo, devido à sua condição. Converteu-se, assim, em um exterminador de enfermeiros. Ninguém dura no emprego mais do que alguns poucos dias. Philippe, no entanto, nunca está só, já que um batalhão de empregados, em especial as governantas Yvonne (Anne Le Ny) e a voluptuosa Magalie (Audrey Fleurot) estão sempre à sua volta. Isso sem mencionar a filha adolescente dele.


A distância sócio-cultural de Phillipe para Driss (Omar Sy, excelente, para não usar algum adjetivo superlativo demais) não podia ser maior. O franco-senegalês acabou de sair da cadeia e vive na distante periferia parisiense, em um apartamento minúsculo e abarrotado. Quando bate à porta da mansão do milionário, Driss quer apenas um carimbo em seu cartão do seguro-desemprego, atestando que ele compareceu a uma entrevista. Mas, em vez do atestado que lhe garantiria a continuidade do benefício, Driss consegue um emprego - para o qual não tem nenhum traquejo ou inclinação.

Juntar personagens de origens distintas, e destilar todas as situações inusitadas que advém da discrepância de valores e repertórios deles, não é uma ideia original. Mas, vale relembrar, estamos falando de uma história real. E, se isso não bastasse, o talento de Omar Sy para dar vida a Driss compensa qualquer clichê, esterótipo ou presunção de preconceito racial que têm sido atribuídos ao longa. Omar e sua atuação expansiva  fazem contraponto perfeito ao trabalho obrigatoriamente contido e silencioso de Cluzet.

O maior mérito de Toledano e Nakache é não cair na tentação de fazer um filme edificante, cheio de lições. Eles tampouco tiveram o ímpeto panfletário de falar sobre a questão da imigração, sempre tão controversa na França. Em vez disso, a dupla preocupou-se em mostrar os aspectos mais comuns e mundanos de uma relação entre personagens tão díspares, explorando, sem histeria, tudo que poderia ser interessante a partir dela. Os membros funcionais de Driss e o dinheiro e o refinamento de Philippe não agridem um ao outro, mutuamente. Tampouco se complementam. Driss e Phillipe são o que são, independentemente do que podem fazer, apreciar ou comprar. E gostam de estar juntos.



Em alguns momentos, o tom meio-amargo de"Intocáveis" relembra o livro "Feliz Ano Velho", adaptado também para o cinema, de Marcelo Rubens Paiva. O jovem Marcelo, paraplégico após mergulhar de cabeça de um penhasco para um lago, onde bateu a cabeça, também teve a ajuda de um enfermeiro de uma classe social mais baixa para recuperar um pouco do prazer de viver. Neguinho, apelido do enfermeiro, costumava levar Marcelo a jogos do Corinthians e até o ajudou a "bolar" alguns cigarros de maconha.

Hollywood já cresceu os olhos para cima do roteiro e adquiriu direitos para uma adaptação que, dizem, será estrelada pelo competente Colin Firth, de "O Discurso do Rei". Está aí mais um motivo para você se apressar em encontrar uma maneira de assistir ao filme francês. Pois os norte-americanos têm boas chances de pesar a mão e tirar toda a delicadeza do original, que tornou-se um enorme filme justamente por não tentar sê-lo.


Além do filme, a amizade entre Philippe Pozzo di Borgo e o franco-argelino Abdel Sellou deu origem às biografias "Você Mudou a Minha Vida", de Abdel, e "O Segundo Suspiro", de Borgo. Eu, particularmente, estou mais curioso para ler o livro de Abdel. Muito por influência do trabalho de Omar Sy. Aliás, alguém bem podia escrever a biografia de Omar, um poço sem fim de carisma.

Barbada no Oscar, "Intocáveis" foi indicado, mas não ganhou, como Melhor Filme no César, prêmio máximo do cinema francês - Omar Sy levou o de Melhor Ator. Em compensação, já foi premiado em lugares tão disparatados como Japão, Bósnia-Hezergovina, Itália e até mesmo no Festival de Cinema do bastante caipira estado norte-americano de Wisconsin.

Em tempo: "Intocáveis", o título do filme, segundo explicação dos diretores, faz alusão ao fato de os protagonistas não terem nenhum ponto de contato no que diz respeito às suas histórias de vida, até se conhecerem, devido às suas origens tão distintas. O adjetivo serviria também para as personalidades difíceis de ambos. Mas há um motivo mais prosaico para o título, que tem a ver com algumas das tarefas que um enfermeiro de um tetraplégico tem de realizar.

Não foi de graça que "Intocáveis" tornou-se o filme francês mais visto internacionalmente na História, superando "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain". Até o início de outubro, mais de 25 milhões de pessoas já o haviam assistido. Nada mal para um projeto que penou para conseguir financiamento. Houve até quem perguntasse aos diretores se Philippe não poderia "andar um pouquinho" no final, a fim de tornar o filme mais vendável...
"Intocáveis" é excelente porque não tenta sê-lo "Intocáveis" é excelente porque não tenta sê-lo Reviewed by Diego Iwata Lima on 12:34 Rating: 5

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