"Argo" é a afirmação de Ben Affleck à frente e atrás das câmeras

Quem se recorda daquela fase “Demolidor” e “Contato de Risco” tem até certa dificuldade em aceitar que aquele canastrão é o mesmo Ben Affleck por trás de “Argo”, que estreia no Brasil nesta sexta-feira, 9. Neste drama de suspense inspirado em fatos reais, Affleck não apenas atua com competência, mas também dirige com estilo. E o resultado é um dos filmes mais interessantes do ano.

Há em “Argo” três dos ingredientes cinematográficos que mais me atraem. Em primeiro lugar, trata-se de uma história real, conforme mencionei no parágrafo anterior. Em segundo lugar, o filme explora relações diplomáticas, tema que costuma render bons roteiros - ainda mais quando as relações em questão envolvem Irã e Estados Unidos. Por fim, o filme faz ainda diversas críticas ácidas e bem-humoradas a Hollywood e à CIA, dois dos mais sólidos bastiões ianques.

Affleck foi hábil ao inserir um prólogo no roteiro, explicando que, em dado momento, Tio Sam e o Irã já foram best friends. Foi com apoio dos norte-americanos que o Xá Mohammad Reza Pahlavi subiu ao poder, após conseguir dar um golpe de estado no governo do então primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, eleito democraticamente.

A subida de Pahlavi ao poder foi desastrosa para o país. Ao longo de mais de 30 anos, o último rei do Irã enriquece brutalmente, na mesma medida em que oprime a população. Ao ponto de os intelectuais iranianos terem ajudado a orquestrar a elevação do Aiatolá Khomeini, um líder religioso, ao status de chefe de estado e governo, em 1979. Se hoje o Irã é a república do atraso, conforme o ótimo “A Separação” bem retrata, muito da culpa é dos próprios norte-americanos da CIA e dos britânicos do MI6.


“Argo” nos leva a este período. Na época, o destronado Pahlavi já está exilado nos EUA de Jimmy Carter. Mas o novo governo quer que o monarca retorne ao seu país, para ser julgados pelos tribunais de exceção de Khomeini - que provavelmente o levariam à morte por enforcamento. E como o pedido formal não é atendido pelos EUA, a população iraniana decide invadir a embaixada norte-americana para forçar a repatriação de Pahlavi.

Todos os funcionários da embaixada são capturados pelos iranianos, que condicionam a libertação deles à devolução de Pahlavi. Apenas seis funcionários, que estavam em um prédio com acesso direto à rua, escapam. O sexteto consegue abrigo na casa do embaixador do Canadá, que informa os americanos acerca da situação. É aí que entra em ação Tony Mendez (Ben Affleck), especialista no resgate de norte-americanos em situações de risco em outros países.

Após muita confabulação, a CIA não consegue pensar em como retirar os seus diplomatas do país hostil. Até que Mendez tem uma ideia. Ruim, como ele mesmo afirma. Mas, como diz o chefe de Mendez, Jack O’Donell (o sempre ótimo Bryan Cranston, de “Breaking Bad”), trata-se da melhor dentre todas as ideias ruins consideradas pelo grupo.


Mendez decide entrar no Irã como um produtor de cinema em busca de locações exóticas para o filme de ficção científica “Argo” e, desse modo tentar deixar o país com o sexteto, que terá de aprender a se fazer passar por uma equipe de produção - além de contar com muita sorte. E, para não levantar suspeitas, Mendez, de fato, vai ter de estabelecer todos os trâmites de um filme de verdade. Isso inclui publicidade, compra de roteiro, contratação de elenco, abertura de uma produtora verdadeira e até mesmo festa de lançamento de produção, entre outras burocracias.

Fora o roteiro bem amarrado, a despeito de algumas patriotadas e imprecisões históricas, o terceiro longa dirigido por Ben Affleck destaca-se por seu elenco secundário. Além de Cranston, o filme traz Alan Arkin (o avô de “Pequena Miss Sunshine”), como um velho produtor de cinema colaborador da CIA. E John Goodman (o eterno Fred Flintstone), na pele de um especialista em maquiagem que também já havia feito trabalhos para a agência de espionagem.

A direção de arte é impecável, bem como o trabalho da maquiagem e a trilha sonora. O Irã retratado no filme, que usou a vizinha Turquia como locação, parece bastante realista. Também joga a favor do longa o fato de os atores que vivem o grupo de refugiados não serem muito conhecidos, o que facilita à plateia a embarcar na trama.


“Argo”, co-produzido por George Clooney, coloca Ben Affleck na lista de realizadores da nova safra a serem observados de perto. Há uns anos, o seriado “Family Guy”, em um dos característicos flashbacks nonsense de Peter Griffin, recriou como teria sido a inclusão do crédito para Affleck no roteiro vencedor do Oscar de “Gênio Indomável”. Na cena, como se ele e Matt Damon fossem colegas de faculdade, Affleck pede, por favor, para o amigo colocar o nome dele no “trabalho”, antes de entregá-lo. É possível que o flashback faça pouco sentido para as futuras gerações, quando Affleck já tiver se estabelecido como um grande diretor. Ao menos, este é o caminho que "Argo" indica.
"Argo" é a afirmação de Ben Affleck à frente e atrás das câmeras "Argo" é a afirmação de Ben Affleck à frente e atrás das câmeras Reviewed by Diego Iwata Lima on 13:18 Rating: 5

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