"Um alguém apaixonado" é um Kiarostami legítimo

Abbas Kiarostami é celebridade no Brasil. Ao menos entre os frequentadores das mostras e festivais de cinema, cada filme do iraniano é esperado com ansiedade. Não foi diferente com “Um alguém apaixonado”, exibido na 36ª Mostra Internacional de São Paulo. A procura por ingressos para o filme de Abbas formou longas filas, repetindo o fenômeno de tantas outras mostras. Em 2009, “Shirin”, que simplesmente mostrava rostos de mulheres supostamente assistindo a um filme, arrastou multidões às sessões.

Mas o que o cinema de Abbas tem de tão interessante, afinal?

As respostas variam. Há aqueles, como eu, que se interessam pelo cinema do Oriente Médio e assistem a qualquer filme com elementos desta escola. Mas há também os admiradores do peculiar estilo narrativo do diretor. Experimentalista, Abbas costuma construir filmes sem muita preocupação com começo, meio e fim. O roteiro não contempla a linearidade do cinema convencional. Seus filmes costumam mostrar trechos das vidas dos personagens. E pronto. É exatamente o que se assiste em “Um alguém apaixonado”, estreia desta sexta-feira, dia 9.

Em “Um alguém apaixonado”, indicado à Palma de Ouro em Cannes, como já acontecera no anterior “Cópia Fiel”, Abbas fugiu das locações iranianas. Desta vez, o diretor foi para o Japão retratar a história de uma relutante garota de programa às voltas com um cliente bem mais velho do que ela e um namorado ciumento, que nada sabe sobre a profissão da amada.

Como de costume, Abbas exagera na duração dos planos. Outros hábitos do diretor, como a câmera subjetiva e as cenas no interior de automóveis, como já foi visto em “Dez”, também voltam a aparecer. O apreço do diretor pelos finais abruptos e a falta de explicações e justificativas para alguns atos dos personagens também estão presentes, fazendo de “Um alguém apaixonado” um Kiarostami legítimo.


O novo filme do iraniano vai agradar em cheio os espectadores que já estão acostumados ao estilo dele. Quem conhece Abbas já vai ao cinema sabendo que terá de “criar” boa parte da história em sua própria cabeça. Abbas é adepto da teoria da “Obra aberta”, do italiano Umberto Eco, que defende que a obra de arte só se completa após o olhar do espectador. E que assim permaneça. Os fãs agradecem.
"Um alguém apaixonado" é um Kiarostami legítimo "Um alguém apaixonado" é um Kiarostami legítimo Reviewed by Diego Iwata Lima on 13:18 Rating: 5

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