Um dos melhores do ano, "No" mostra como a TV e a publicidade ajudaram a derrubar a ditadura chilena

"Chile, la alegria ya viene!"

“No”, do chileno Pablo Larrain, já chegou ao Brasil com certa fama. Premiado em Cannes com o prêmio especial da Confederação Francesa do Cinema de Arte, o longa não foi escolhido para a sessão de abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo à toa. Tampouco venceu o prêmio do júri popular da mesma Mostra por acaso. O filme estrelado por Gael Garcia Bernal, com fatos reais misturados a cenas de ficção, foi mesmo um dos melhores do ano. Indicado também ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, "No" poderá ser visto a partir de 28 de dezembro nos cinemas brasileiros.

Chile, 1988. Após 17 anos de Ditadura Militar, o povo chileno poderá enfim optar pela saída do General Augusto Pinochet do poder, por meio de um plebiscito – o tal “Não” do título. Quando o plebiscito é lançado, a oposição o trata com descrédito. A vitória do General, devido ao medo generalizado, parecia barbada. Mesmo assim, grupos de esquerda decidem se mobilizar. Afinal, haverá propaganda eleitoral gratuita na TV. E alguém vai ter de criar as peças que vão ao ar em 20 minutos diários.

É aí que René Saavedra (Gael Garcia Bernal) entra na história. O jovem publicitário é uma das maiores estrelas da publicidade chilena, camisa 10 da agência em que trabalha. Lucho Guzmán (Alfredo Castro), dono da agência e entusiasta da Ditadura, o trata como filho. Mas Saavedra e os grupos de esquerda tem uma ligação mais antiga. Por mais que o jovem publicitário tenha passado anos nos Estados Unidos, nunca deixou de ser filho do velho Saavedra, um importante militante do passado.

Mesmo relutante, Saavedra filho acaba participando da campanha como a principal cabeça pensante do grupo. A história começa a ser feita. E a televisão e a publicidade começam a ajudar a tirar Pinochet do poder.

Pablo Larraín e o roteirista Pedro Peirano mostram habilidade para costurar os fatos reais com os dilemas de Saavedra e fazer um filme de roteiro agradável e até engraçado. Percebem que a história real é muito mais interessante que a trama do publicitário que, entre outras questões, tem de enfrentar o próprio chefe, ironicamente, o publicitário da campanha pró-Pinochet. Assim, Saavedra e Guzmán passam a ser coadjuvantes das próprias histórias. As cenas reais se impõem e roubam o filme.

O uso da fotografia no filme também merece destaque. O longa foi todo captado com antigas câmeras U-Matic, para dar mais realismo e temporalidade às cenas - também para que elas não conflitassem tanto com as cenas de arquivo originais. Uma ideia genial que dá um quê a mais ao longa.


Larraín contou com diversas participações de artistas e personalidades que se engajaram na campanha à época do plebiscito. O mais interessante é que os participantes aparecem no filme como são hoje, 23 anos mais velhos que à época. Depois, quando as peças publicitárias reais veiculadas em 1988 são exibidas, é divertido avaliar as mudanças. Há inclusive, participações em arquivo dos hollywoodyanos Jane Fonda, Richard Dreyfuss, além do eterno Super-Homem Christopher Reeve.

Com uma montagem precisa e um ritmo muito adequado, “No” conta a história melhor do que qualquer livro de história poderia sonhar. Gael, com sua atuação, ao mesmo tempo, blasé e nervosa, tem um desempenho excelente. Assim como Alfredo Castro. Mas não tem jeito. O melhor do filme é mesmo poder assistir aos comerciais de TV originais de 1989.


Aliás, graças à Internet e ao YouTube, é possível rever todos os comerciais da época. Valem o click (links abaixo). Ainda mais quando lembramos que estas peças ajudaram a mudar um país. É aí que fico pensando. Passou da hora de alguém fazer um bom filme sobre a campanha das Diretas Já. Ou sobre a primeira campanha eleitoral para presidente do Brasil, de 1989. Nas mãos certas, poderiam resultar em ótimos filmes.

Em tempo: neste link há uma matéria sobre os verdadeiros responsáveis pela campanha do "Não". Vale a pena conhecer os verdadeiros heróis.

Filme da campanha do "Não":


Filme com a participação de artistas e personalidades chilenos:

Um dos melhores do ano, "No" mostra como a TV e a publicidade ajudaram a derrubar a ditadura chilena Um dos melhores do ano, "No" mostra como a TV e a publicidade ajudaram a derrubar a ditadura chilena Reviewed by Diego Iwata Lima on 01:24 Rating: 5

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