Existe material para três filmes em “O Hobbit”?

É lá pela metade de “A Sociedade do Anel”, em Valfenda, que Bilbo (Ian Holm) chama Gandalf (Ian McKellen) em um canto para conversar. Cansado, o velho hobbit vira-se para o amigo mago e diz: “Estou ficando velho. Sinto-me como se fosse um punhado de manteiga que precisa ser espalhado em um pedaço muito grande de pão”. Talvez só os fãs mais ardorosos da trilogia original de “O Senhor dos Anéis” lembrem-se da cena. Mas o que ela quer dizer é bem fácil de entender. E explica um pouco o que senti ao assistir a “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada”, estreia mundial de 14 de dezembro nos cinemas.

A sensação de retornar à Terra-média é fantástica para alguém que, como eu, está órfão do mundo criado por J. R. R. Tolkien desde o lançamento nos cinemas de “O Retorno do Rei ”, vencedor de 13 Oscar, incluindo melhor filme, na premiação de 2003. Parafraseando Gilberto Gil, a Terra-média continua linda. Mas, conhecendo o livro “O Hobbit” no qual a nova trilogia de Peter Jackson foi baseada, deixei a sala de cinema bem preocupado sobre como o diretor e roteirista neozelandês e sua equipe vão fazer para escrever mais seis horas de história.

“Uma Jornada Inesperada” não é um mau filme, mas demora um pouco a engrenar. A trama está situada 60 anos antes dos acontecimentos da trilogia original. Bilbo (Martin Freeman) ainda jovem é apenas um hobbit inquieto e descontente com o rumo de sua vida tranquila no Condado. Até que uma visita de Gandalf o coloca em contato com uma legião de anões. Sem o consentimento de Bilbo, Gandalf o indicou para fazer parte de uma comitiva que pretende viajar ao Reino de Erebor, uma cidade-estado riquíssima incrustrada na montanha, que há muito tempo foi tomada dos anões pelo dragão Smaug. Na mitologia de Tolkien, vale dizer, dragões são sedentos por ouro.

Dos novos personagens, o destaque fica para Thorin (Richard Armitage, de "Capitão América: O Primeiro Vingador"), herdeiro do trono de Erebor e líder da expedição. Cabe a ele o arquétipo de liderança importante em sagas épicas. O mesmo desempenhado na trilogia original por Aragorn (Viggo Mortensen). A fotografia também merece destaque. Assim, como já era de se esperar, os efeitos especiais da Weta Workshop estão excelentes. Mas o filme tem alguns problemas.


Ao contrário dos três tomos de “O Senhor dos Anéis”, “O Hobbit” foi escrito como uma história infantil relativamente curta. Assim, além de menos material para minutagem, o novo filme também não tem os conflitos morais e as motivações heroicas e complexas dos personagens que ajudam o público a criar empatia com os protagonistas. Os propósitos dos anões, que pretendem retomar o poder sobre o reino e seus tesouros, são bem menos intrincados e nobres que os conflitos de Frodo (Elijah Wood) e sua trupe. Vale lembrar, afinal, que da jornada de Frodo pela destruição do Um Anel dependia a manutenção do bem no planeta.

Para escrever “Uma Jornada Inesperada”, Peter Jackson e seu time de roteiristas precisaram recorrer a alguns apêndices existentes nos livros. Isso, em parte ajudou o roteiro a ganhar um pouco mais de consistência. Mas ainda há sequências um tanto arrastadas. Especialmente quando o ritmo do novo filme é comparado ao de “Retorno do Rei”.


Em 1977, a animação feita para TV "O Hobbit", notabilizou-se por sua tosquice e pelo tom infantil, que chegou a ser parodeado em South Park, no episódio do rato que, bem, conhece o interior de Mr. Slave.  Lembro de ter assistido ao longa de 80 minutos para entender como Bilbo tinha conquistado o Um Anel, por preguiça de ler o livro. Se a história coube bem explicada em uma animação ruim de uma hora e vinte, não tenho como fugir à impressão de que só chegaremos a quase nove horas de trama de filme com muita coisa sendo esticada.

Os melhores momentos de “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada” aparecem quando o filme revisita o passado. Rever não apenas Gandalf e Bilbo mais velho, mas também Gollum (Andy Serkis) - no auge da esquizofrenia – Galadriel (Cate Blanchet), Elrond (Hugo Weaving), Frodo (Elijah Wood), Saruman (Christopher Lee) é muito bom para os fãs da trilogia. Mas será que um projeto deste porte, com este custo, calcando a maior parte do seu poder de atração no saudosismo, vai prosperar?


Quem vai responder a esta pergunta definitivamente é o segundo filme, cujo título em inglês é “The Desolation of Smaug”“A desolação de Smaug”, em tradução literal. O desfecho da série, com os acontecimentos e as enormes batalhas que devem ficar reservados ao terceiro filme, parece-me garantido. Vamos apenas esperar para saber como Peter Jackson pretende rechear o miolo. E não ficarei surpreso se ele obtiver sucesso.

Atualização:  "O Hobbit: Uma Jornada Inesperada", em 3D

Assistir ao filme em 3D não alterou muito a experiência. A transposição para o formato não ficou ruim. Os personagens têm textura, não parecem apenas imagens de papel colocadas uma à frente da outra. Mas está bem longe da excelência de "Avatar", por exemplo, que ainda é o filme 3D que mais transportou a plateia "para dentro" da ação, proporcionado uma sensação de imersão na tela aos espetadores.
Existe material para três filmes em “O Hobbit”? Existe material para três filmes em “O Hobbit”? Reviewed by Diego Iwata Lima on 22:03 Rating: 5

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