"Amor", indicado a cinco categorias no Oscar, merece todos os aplausos

O primeiro filme de Michael Haneke a que assisti foi "Tempo de Lobos" ("Le temps du Loup"), na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2003. Na época, eu ainda não conhecia muito bem o estilo do austríaco. O filme foi um dos mais aguardados daquela edição da Mostra. A sala do antigo Cinearte, no Conjunto Nacional, estava lotada, muito graças à  fama conquistada pelo diretor com "A Professora de Piano", de 2001.

Entre os mais de 20 longas a que assisti naquele ano, o de Haneke, de longe, foi o meu favorito. Desde essa época, passei a esperar ansiosamente pelos filmes dele. Tais como "Caché", de 2005, e "A Fita Branca", de 2009. O estilo do austríaco é marcante. Haneke gosta de atuações naturalistas e planos longos. Seus filmes passam a sensação de extremo realismo. Neles, os atores parecem, de fato, pessoas normais, em atitudes corriqueiras.

Mas o aspecto mais marcante de todos os filmes do diretor a que assisti é a naturalidade com que os personagens cometem atrocidades e atos inesperados. A ausência de música como prenúncio dos momentos mais tensos ajuda a criar o atmosfera de surpresa. Michael Haneke é um diretor que gosta de chocar. E, principalmente, de fazer filmes excelentes.

Em "Amor", seu mais recente trabalho, que estreia no Brasil nesta sexta-feira, 18 de janeiro de 2013, Haneke está em grande forma. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o longa já levou o Globo de Ouro de Filme em Língua Estrangeira e aparece como favorito absoluto a arrebatar também o Oscar da mesma categoria. Será merecido. De tão bem realizado, o longa acabou indicado também ao principal prêmio da noite, como Melhor Filme. Haneke concorre ainda a Melhor Diretor e Roteiro.

É complicado dizer qual das qualidades do filme sobressai. "Amor" funciona tão bem como obra completa que é difícil fazer menção isolada a um de seus elementos. A tentação de dizer que o forte do longa está na dupla de protagonistas é grande, porque, afinal, Georges (Jean-Louis Tritingnant, ganhador da Palma de Ouro por "Z",em 1969) e Anne (Emmanuelle Riva, indicada ao Oscar 2013) passam mais de 90% do tempo juntos na tela - a musa Isabelle Huppert faz uma ponta excelente. Mas é fato que Haneke facilita o trabalho da dupla ao conseguir conferir certa dimensão de temporalidade aos velhinhos, graças a uma competente construção de personagens.


Anne e George moram sozinhos em um apartamento amplo de Paris. Em dada manhã, no meio de uma conversa sobre um concerto a que assistiram no dia anterior, Anne assume um estado de catatonia. Georges chama a atenção da esposa, mas ela não responde. Preocupado com o episódio, o marido procura um médico e descobre que Anne sofreu um AVC. Medidas para tentar conter os efeitos do ataque são tomadas, mas não funcionam. E Anne começa, aos poucos, a perder funções. Primeira, a parte motora. E depois, enfim, o que lhe resta, numa dissolução irreversível. .

"Amor", que começa com uma morte, trata de um tema bastante espinhoso e não é um filme fácil, embora, acreditem, seja muito bonito. De tão pesado que vai se tornando, o longa nem chega a ser triste. O roteiro é tão bem feito, que a sucessão de fatos que envolve o espectador, em doses homeopáticas, faz com que a plateia não perceba a espiral de tristeza em que está se metendo. E comece a encarar alguns acontecimentos como corriqueiros, naturais.


Pouco importa que se saiba logo no início o que vai acontecer no final. "Amor" não é sobre o fim da história, mas sim sobre como chegar a ele. Tal como o sentimento de que empresta o nome, o filme de Michael Haneke não está nos grandes gestos, mas nos pequenos atos, que vão construindo os porquês condutores dos protagonistas.

Um filme precisa ser muito bom para ser tão pesado e, assim mesmo, receber tantas recomendações positivas. E assim o é. "Amor" não possui tanta fama ao acaso. E, acredite, também não recebeu esse título sem motivo. Apesar de um silêncio grave e respeitoso ter sido a resposta da audiência da sala em que assisti ao filme, Michael Haneke, uma vez mais, merece todos os aplausos. Inclusive os que certamente vai receber na noite de entrega do Oscar, no Dolby Theater.
"Amor", indicado a cinco categorias no Oscar, merece todos os aplausos "Amor", indicado a cinco categorias no Oscar, merece todos os aplausos Reviewed by Diego Iwata Lima on 11:45 Rating: 5

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