Tecnologia e sentimento se destacam em "As Aventuras de Pi"

Há um ano, escrevi minha crítica sobre o ótimo "A invenção de Hugo Cabret". Comecei meu texto falando sobre o meu problema com filmes em 3D, que sempre me causavam dores de cabeça. Entretanto, “Hugo” foi uma exceção e concluí que quando o filme era bom, o 3D não incomodava. Ao assistir a “As Aventuras de Pi” mudei de conclusão. Na verdade, o 3D não dá dor de cabeça, pelo menos para mim, quando é bem usado. E a tecnologia parece ter sido feita para longas de fantasia, como é o caso de “Avatar” e “Hugo”. Quando o filme deixa o realismo de lado e abusa de imagens coloridas, o 3D funciona perfeitamente.

Não à toa, "Pi" foi indicado ao Oscar em duas categorias que premiam esse tipo de investimento: Efeitos Especiais e Fotografia. Mas não é somente o uso da tecnologia que pode fazer com que “As Aventuras de Pi” receba estatuetas no próximo final de semana. O longa foi indicado a 11 categorias, entre elas: Melhor Filme, Melhor Diretor, Roteiro Adaptado e Edição.

O indiano Piscine Molitor Patel (nome inspirado em uma famosa piscina pública de Paris, que hoje é um monumento histórico da cidade), conhecido como Pi, é o personagem principal dessa história. Durante as mais de duas horas de filme ele narra a sua aventura quando jovem para um escritor, que, segundo indicações, iria passar a “acreditar em Deus” após ouvi-la. Pi cresceu na Índia e sua família era dona de um famoso zoológico. Com o passar do tempo, a família resolve levar os animais para o Canadá, de navio, para vendê-los, ganhar dinheiro e recomeçar suas vidas. Na viagem até o outro continente, o navio encara uma forte tempestade (olha o 3D aí!), afunda e deixa Pi, o único sobrevivente de sua família, à deriva em um bote, acompanhado de uma zebra, uma hiena, um orangotango e Richard Parker, um tigre de bengala.

Toda essa louca fantasia é inspirada no livro homônimo de Yann Martel. O escritor hispano-canadense declarou, após a estreia do filme, que sua história era baseada no livro “Max e os Felinos”, do escritor brasileiro Moacyr Scliar. Hoje, os ânimos entre os dois estão mais amenos. Mas Scliar chegou a pensar em processar o colega de profissão. Não pela adoção da mesma premissa. Mas sim pelo fato de Martel ter declarado que seu livre havia trabalhado melhor a ideia de Moacir. Na versão do brasileiro, um refugiado judeu (Scliar era judeu) deixava a Alemanha e cruzava o Atlântico em um bote acompanhado de um jaguar.


A direção é do diretor chinês, e bem eclético, Ang Lee. Digo isso porque, em seu currículo, encontramos filmes de diversos tipos. Lee ganhou um Oscar pelo ótimo drama “O Segredo de Brokeback Mountain”, já fez uma comédia sobre o maior festival de rock de todos os tempos - “Aconteceu em Woodstock” -, “O Tigre e o Dragão”, um filme de época e artes marciais, e até um sobre culinária:  “Comer, Beber e Viver”. Dessa vez, Lee se aventurou pelo mundo da ficção e da fantasia. E acertou em tudo. Até mesmo na escolha do ator para viver o escritor. A ideia inicial era que esse papel ficasse com Tobey Maguire, da primeira trilogia “O Homem Aranha”. Maguire chegou até a gravar algumas cenas, mas Lee optou por Rafe Spall, para não tirar o foco do público em relação ao restante do elenco, que é formado por nomes praticamente desconhecidos.

No decorrer da história, Pi é interpretado por quatro diferentes atores – cada um em uma idade diferente. Os dois que mais se destacam, muito pelo tempo que ficam presente na tela, são Suraj Sharma e Irrfan Khan. O primeiro é quem vive toda a aventura de Pi quando jovem e passa dias em um bote com um tigre. O jovem indiano nunca tinha participado de nenhum filme e nem tinha a pretensão de fazê-lo. O jovem foi acompanhar seu irmão nos testes para o papel e Ang Lee e sua equipe gostaram tanto de Suraj que pediram para ele realizar o teste também. Ele ficou com o papel disputado por três mil garotos.


Irrfan Khan é o Pi adulto, que narra a história para o escritor. O ator consegue expressar perfeitamente o sentimentalismo exigido pelo personagem ao contar os dias à deriva. Mas isso não seria difícil para um cara que tem incríveis 115 filmes em seu currículo, entre eles “Quem quer ser um milionário?” e “O Espetacular Homem-Aranha”.

“As Aventuras de Pi” é um dos filmes mais gostosos a que já assisti. Sei que as chances de vencer como Melhor Filme são bem pequenas, já que briga com grandes obras como “Lincoln”, “Django Livre”, “Os Miseráveis” e “O Lado Bom da Vida”. Mas, concorrendo em 11 categorias, espero que eles deixem o Oscar com várias estatuetas. Afinal, não é uma tarefa nada fácil fazer com que o público se envolva com uma relação entre um garoto e um tigre de bengala. E o filme consegue.

Richard Parker e Pi constroem uma relação de respeito e companheirismo nos dias que ficam no mar e você se pega torcendo para que eles virem amigos e acaba esquecendo que um tigre de bengala é um animal feroz. Isso também faz parte do sucesso do longa. Richard Parker foi criado por meio da tecnologia CGI – usada também no leão de “Nárnia” – e parece tão real que é quase impossível perceber a diferença entre as cenas em que eles usam um tigre de verdade.


Todo esse capricho digital, a boa utilização do 3D, o bom elenco e uma história incrivelmente mágica, fizeram de “As Aventuras de Pi” um filme praticamente perfeito, um dos mais bem realizados dos últimos tempos. Apesar de toda a fantasia da história, é quase impossível terminar de assistir ao longa e não refletir sobre as mensagens deixadas por Pi e seu parceiro Richard Parker.
Tecnologia e sentimento se destacam em "As Aventuras de Pi" Tecnologia e sentimento se destacam em "As Aventuras de Pi" Reviewed by Mayara Munhoz on 19:17 Rating: 5

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