Com um Daniel Day Lewis magistral, "Lincoln" cansa de tão perfeito

Interpretar um personagem real, transformando-se completamente nele por meio de caracterizações fiéis e atuações minimamente corretas, rendeu um Oscar a diversos atores nos últimos anos. Lembremos aqui de Jamie Foxx (Ray Charles), Philip Seymour Hoffman (Truman Capote), Meryl Streep (Margaret Thatcher), Marion Cotilard (Edith Piaf), Helen Mirren (rainha Elizabeth II), Reese Whiterspoon (June Carter), Nicole Kidman (Virginia Wolf), entre outros. Só isso já seria suficiente para indicar o amplo favoritismo de Daniel Day-Lewis à estatueta em 2013. Mas o que o já duplamente premiado artista faz em “Lincoln” não dá margem para que qualquer outro postulante ao troféu crie muitas expectativas.

Abro a resenha deste drama de época pelo ator porque nada aparece mais forte em “Lincoln” do que a atuação de Lewis. É um filme tão norte-americano, feito tanto para norte-americanos, que os mais leigos sobre a história dos Estados Unidos acabam se atendo mais ao elenco do que à trama. Arrisco dizer que mesmo para os americanos, que veem uma cinebiografia daquele que talvez seja seu maior ídolo político na história, “Lincoln” não teria o impacto que teve sem Lewis. Steven Spielberg, o mentor da obra, já assumiu que o projeto só saiu de verdade quando o intérprete aceitou o papel, após pelo menos três recusas.

Resumidamente, “Lincoln”, glorificante e cansativo, conta os últimos meses de vida do ex-presidente dos Estados Unidos, justamente no momento mais intenso de sua carreira política, em 1865. No intervalo entre seus dois mandatos, o homem que saiu do interior para virar o chefe de Estado mais amado da história americana foi o principal artífice de dois fatos que mudaram os rumos do país: a abolição da escravidão com a aprovação da 13ª emenda à Constituição, e o fim da Guerra Civil entre os estados do norte e do sul -  batalha que durou mais de quatro anos e matou quase um milhão de pessoas.

O roteiro adaptado por Tony Kushner e levado às telas com maestria por Spielberg (ambos indicados ao Oscar por suas respectivas funções) em nenhum momento tenta diminuir a exaltação a Abraham Lincoln a que o povo americano já está acostumado a fazer. Apesar de relatar que o presidente aprovou uma espécie de suborno para que congressistas democratas mudassem de lado e aprovassem a 13ª emenda (todos com empregos, jamais com dinheiro), o filme é uma ode à inteligência, à simplicidade, à coragem, à honestidade e à camaradagem de Lincoln.

Achei muito interessante o fato de Lewis ser tão alto quando o ex-presidente. O 1,87 m do ator se aproxima do 1,90 m de Lincoln e permite ao diretor várias tomadas em que os outros personagens olham para cima quando conversam com o herói. Cadeiras mais altas para Lincoln e sua corcunda acentuaram ainda mais a grandiosidade do protagonista.



Nada é “mais ou menos” em Lincoln, o que nos permite entender que nenhuma das 12 indicações ao Oscar foi injusta. Figurino, edição, fotografia, uma trilha sonora cuidadosamente preparada pelo gênio John Williams, direção de arte e mixagem de som são os prêmios técnicos que o filme tenta levar.

Falta  mencionar aqui os trabalhos de atuação coadjuvante que renderam nomeações a Sally Field e Tommy Lee Jones. Ela é a esposa de Lincoln, Mary, que convive com dores de cabeça intensas e o drama de perder dois filhos ainda crianças. É uma conselheira indireta do presidente, que detesta a hipocrisia da política e não suporta a ideia de viver na Casa Branca. Não fosse o trabalho maduro de Anne Hathaway em “Os Miseráveis”, Field levaria para casa sua terceira estatueta (as outras duas foram em papéis principais).



Mais surpreendente ainda é o que faz Lee Jones. O ator aproveita sua carranca tradicional e usa uma peruca que ele mesmo chama de ridícula para dar vida ao mal humorado Thaddeus Stevens, um dos dinossauros da política americana e redator do texto da 13ª emenda. Nos momentos necessários, o ator caminha da rabugice para a discreta ternura no tom certo. Sua última cena no filme, em uma cama antes de dormir, foi, para mim, a mais emocionante de todo o longa. Tem minha torcida disparada na briga pelo Oscar. E acho que leva.

“Lincoln” e Spielberg serão premiados neste domingo por filme e diretor? Tenho dúvidas diante da confusão em que os votantes da Academia se meteram recentemente ao deixar Ben Affleck de fora das indicações. “Lincoln” é um épico total, uma ode ao maior nome da política americana, e isso tende a agradar os velhinhos de Hollywood. Entretanto, a agilidade de “Argo” e sua capacidade de relatar, também de maneira patriótica, um fato isolado da história dos Estados Unidos – somados a isso todos os prêmios que arrebatou até agora –, podem mudar os rumos da festa. Para Spielberg, amado e admirado por todos, só vejo Ang Lee, por “As Aventuras de Pi”, como concorrente direto. É esperar para ver.
Com um Daniel Day Lewis magistral, "Lincoln" cansa de tão perfeito Com um Daniel Day Lewis magistral, "Lincoln" cansa de tão perfeito Reviewed by Paula Almeida on 17:23 Rating: 5

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