"Django Livre" arrebata com atuações geniais e Tarantino em ótima forma

Quentin Tarantino, o nerd mais bem sucedido da história do cinema nas duas últimas décadas, deve ter apanhado muito na infância e na adolescência. Porque ainda está para nascer alguém que goste tanto de usar a vingança como pano de fundo para uma trama quanto o diretor e roteirista do ótimo "Django Livre" ("Django Unchained"), indicado aos Oscar de Melhor Filme, Roteiro Original, Ator Coadjuvante, Edição de Som e Fotografia. 

Independentemente disso, goste-se ou não do trabalho de Tarantino, deixar de reconhecê-lo como um dos maiores autores do cinema atual é um erro. Tarantino tem estilo. Durante as vinhetas das produtoras, antes do começo de seus filmes,  já é possível saber quem é o dono da obra. Cada fotograma tem assinatura e marca. "Django Livre" não foge à regra. Pode nem mesmo ser a maior obra do diretor. Afinal, "Pulp Fiction: Tempo de Violência" e "Cães de Aluguel" tornaram-se objeto de culto ao longo dos anos e envelheceram quase sem arranhões. Mas "Django Livre" está muitíssimo acima da média de Hollywood.

O nome de Tarantino costuma evocar adoração aos filmes feitos por ele antes de mesmo de os roteiros estarem concluídos. Basta o anúncio de que o norte-americano está pensando em filmar para quase todo mundo que gosta de cinema começar a se coçar. Sim, quase todo mundo. Pois como todo ídolo, Tarantino tem seus detratores. E entre as restrições que ele costuma receber estão algumas até cabíveis. O diretor gosta de sangue e tiros. Muito sangue e muitos tiros. "Ah, mas é um sangue estilizado, uma violência quase infanto-juvenil". É. Mas ainda são sangue, tiro e violência demais para alguns estômagos.

Em "Django Livre", Tarantino faz uma homenagem a um dos gêneros mais queridos dos fãs mais ortodoxos do cinema norte-americano: o Western Spaghetti - ou Faroeste, como traduzimos por aqui. O diretor toma emprestado, inclusive, o nome de uma dos obras mais célebres do gênero. "Django", lançado em 1966 foi um fenômeno da época. A ponto de produtores espertinhos terem mudado o nome dos protagonistas de outros filmes para Django quando lançaram seus produtos nos mercados europeus e asiáticos na época, por exemplo. Não por acaso, o "Django" original tem como cena mais célebre uma carnificina com uma metralhadora escondida em um caixão.


O Django do filme de Tarantino é Jamie Foxx ("Ray"), que está sensacional. Só não está melhor que Christoph Waltz (indicado a melhor ator coadjuvante), que incorpora o ex-dentista e caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz. Em sua segunda parceria com Tarantino, Waltz não chega ao nível da atuação odiosamente brilhante de "Bastardos Inglórios". Talvez porque, dessa vez, Waltz seja uma espécie de mocinho. Digo espécie porque, como em todo Western que se preza, a bússola moral dos personagens de "Django Livre" está longe de apontar para o comportamento que hoje chamamos de ético, ou moralmente aceitável. Bem longe. No sul dos Estados Unidos de antes da abolição da escravatura, vale a regra do cada um por si.

O filme começa em 1858, com Dr. Schultz, digamos, "comprando" Django de uma dupla de mercadores de escravos. Tudo porque precisa de alguém que o ajude a identificar três criminosos, procurados vivos ou mortos pela Justiça. Django tem um desempenho tão bom em seu primeiro serviço que Dr. Schultz decide convidá-lo para formar dupla com ele. Pouco a pouco, os dois vão se tornando amigos. Ao ponto de Dr. Schultz decidir que, um dia, vai ajudar Django a encontrar sua esposa Broomhilda Von Schaft (Kerry Washington, também de "Ray") que fala alemão e ainda é escrava em alguma fazenda do Mississipi.


No caminho até o resgate da esposa, porém, Django vai se aculturando. Aprende a ler, torna-se um exímio atirador e adquire um gosto, digamos, melhor para roupas. Além de conhecer Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, brilhante e inexplicavelmente fora da lista de indicados ao Oscar), um fazendeiro escravocrata que explora a luta de escravos até a morte. O "Mandingo", nome que é dado tanto à luta, propriamente, quanto aos lutadores, é um dos mitos mais controversos da história dos EUA pré-abolição. Há quem jure que não passa de lenda. Há quem defenda sua existência como uma das maiores vergonhas da história do Tio Sam. Em "Django Livre", contudo, Mandingo é um dos pontos mais importantes da trama.

Com participações de Franco Nero, o Django do filme original, e de Samuel L. Jackson, como Stephen,  um detestável e racista empregado da Casa Grande, "Django Livre" fala abertamente, e de maneira divertida, de temas sérios, como o racismo, o controle de armas, a escravidão e até mostra, de maneira que os defensores da supremacia branca certamente devem ter detestado, o surgimento da Ku Klux Klan, que ainda persegue cidadãos negros nos Estados Unidos. Esta parte conta com uma hilária ponta do cada vez mais estrela Jonah Hill ("Superbad" e "Moneyball: O homem que mudou jogo"). O próprio diretor também aparece em uma ponta bem divertida.

Tarantino recebeu enxurradas de críticas contra o uso aberto do termo "nigger" - algo como "crioulo", em português - a ofensa mais pesada que um branco pode fazer a um negro em língua inglesa. Também houve quem dissesse que o diretor está perdendo a mão, com filmes cada vez mais previsíveis. Sim, a gente sabe que Tarantino gosta de finais felizes e redentores. Mas isso faz parte da assinatura dele, afinal. Por fim, houve também quem o acusasse de fazer uma colagem de velhos clichês de westerns. Mas que colagem talentosa, hein?


"Django Livre" é um dos filmes mais arrebatadores do ano. Ótima edição, excelente fotografia, direção de arte impecável, atuações de primeira, roteiro criativo e bem-amarrado. E, para variar, o uso inteligente da trilha sonora, com canções clássicas do western e até rap e música pop sendo usados anacronicamente - mais uma assinatura do diretor.

Por todas essas razões, a não-indicação de Quentin Tarantino à categoria Melhor Diretor chega a ser um ultraje. "Django Livre" é um filmaço. Um Tarantino com T maiúsculo. 
"Django Livre" arrebata com atuações geniais e Tarantino em ótima forma "Django Livre" arrebata com atuações geniais e Tarantino em ótima forma Reviewed by Diego Iwata Lima on 17:13 Rating: 5

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