Show estético, didatismo e mocinha apática marcam "O Grande Gatsby"

"O Grande Gatsby", o livro, foi a obra-prima de Scott Fitzgerald. "O Grande Gatsby", o filme (em sua mais recente versão), definitivamente não é a obra-prima de Baz Luhrman nem de Leonardo DiCaprio. Dito isso, nossa opinião: ainda assim, a película vale a pena.

A recepção fria dos críticos e do público ao filme na abertura do Festival de Cannes deste ano já deu a deixa de que um dos títulos mais esperados de 2013 não era de empolgar. Mas a verdade é que há muito o que se apreciar nesta adaptação cinematográfica de um dos maiores clássicos da literatura norte-americana e mundial.

A história se passa nos Estados Unidos dos anos 1920 e narra a vida de um homem cercado de mistérios, Gatsby (Leonardo DiCaprio, de "Django Livre" e "Titanic"), cuja riqueza descomunal tem razões desconhecidas. Sua casa é palco de festas nababescas, repletas de pessoas que sequer o conhecem pessoalmente e que, como livro e filme ressaltam, aparecem por lá sem convite.

Um matador? Um rico de berço? Um traficante de bebidas? Tudo são histórias sobre Gatsby, cuja única realidade, do início ao fim, é a ambição. O que muda é a razão dessa ambição. Se no começo da vida o garoto pobre queria crescer na vida, depois, sua única meta é enriquecer para enfim conquistar o coração deslumbrado de sua amada Daisy.

Namorados por dias no final da adolescência da moça, Gatsby e Daisy se desencontram quando ele parte para a primeira Guerra Mundial e a deixa livre para casar-se com Tom, um ricaço, jogador de polo e insuportavelmente preconceituoso. Anos depois, o reencontro dos enamorados mistura-se a um caso extraconjugal de Tom em uma trama de muito melodrama, tragédia e realidade sociocultural da América do início do século 20. Tudo isso narrado por Nick, primo de Daisy, única pessoa a mostrar fidelidade em toda a vida de Gatsby.


Aí você pergunta: mas essa é a história do livro ou do filme? E aqui podemos ver um ponto positivo: dos dois. Baz Luhrmann e seu parceiro de script, Craig Pearce, não se meteram a alterar em praticamente um milímetro o que Fiztgerald tão perfeitamente escreveu. Tudo que a dupla de roteiristas fez foi obviamente pular alguns trechos da obra literária – natural para uma adaptação de pouco menos de 3h de filme – e didatizar alguns pontos. Nick agora tem para quem contar – um psiquiatra, e não mais o leitor – suas proezas com o amigo milionário. Já a origem da riqueza de Gatsby é apenas insinuada no livro. Na telona, fica escancarada ainda na primeira metade de exibição.

A mão de Baz Luhrman no filme fica clara justamente na estética utilizada, o forte de todos as suas produções. Você se lembra das cores vivas, dos cortes de cena quase em ritmo de videoclipe, da música alta e das luzes de "Moulin Rouge" ou "Romeu + Julieta"? Então, é isso mesmo que se vê na adaptação do diretor australiano para "Gatsby".

Mais uma vez contando com a participação vital de sua esposa, Catherine Martin, diretora de arte e responsável pelo figurino do filme, Luhrman pinta em tinta forte as festas na mansão do protagonista. Com tons de cinza, torna bastante real o Vale das Cinzas narrado no livro, uma área tomada por obras e construções que liga Long Island, onde vivem os personagens, a Nova York.

Muito se falou sobre a trilha sonora de Gatsby. Jay Z é um dos produtores do filme, então é possível entender por que tudo é tão carregado de hip hop. Há até uma versão de Beyonce para Back to Black, de Amy Winehouse. Mas confesso que diante do que li antes, esperava sequências musicais muito mais pesadas. Não vi isso. Mas senti muita falta de jazz.


O que realmente pesa em "O Grande Gatsby" são as atuações, tanto positiva quanto negativamente. Leonardo DiCaprio é, ao meu ver, um dos cinco melhores atores da atualidade em Hollywood. Como o protagonista misterioso ele está mais uma vez perfeito. Conseguiu dar ao personagem a aura inatingível que ele tem no livro e que só se deixa quebrar nas cenas com Daisy ou nos ótimos encontros com Tom (a tensão de Gatsby no primeiro cumprimento entre os dois é, talvez, a melhor cena de DiCaprio no filme).

Por falar em Tom, Joel Edgerton (de "A Estranha Vida de Timothy Green") - um australiano preenchendo a cota local da Oceania nos filmes de Baz Luhrman - é uma gratíssima surpresa. Além de conseguir dar um ar de galã ao seu personagem, Joel soube levar às telas todo o caráter odioso de Tom.

O outro grande destaque fica por conta de Tobey Maguire, conhecido pelo "Homem-Aranha". Talvez seja o rosto de pateta do ator (é verdade, convenhamos), mas ele dá o tom de ternura que contrasta com as ambições de Gatsby, as grosserias de Tom e a apatia das personagens femininas. Seu Nick, no filme desprovido do romance que o livro lhe reserva com Jordan, é o contraponto de realidade com o mundo de fantasia dos protagonistas.

Mas se os homens sobram em "O Grande Gatsby", as mulheres são uma sucessão de decepções, o que talvez nem seja culpa delas, mas sim de uma interpretação de texto um pouco distorcida dos roteiristas. A belíssima Elizabeth Debicki faz uma Jordan (melhor amiga de Daisy) rasa demais, que sempre parece estar com a mesma feição de desprezo a tudo e todos. Isla Fisher (de "Os Delírios de Consumo de Becky Bloom") interpreta uma Myrtle (amante de Tom) que transborda de cafonice e força, o que, a princípio, ela não deveria ter.


E o que falar da Daisy interpretada por Carey Mulligan (de "Shame" e "Drive")? É a atuação que mais arranca discordâncias entre os críticos. Minha opinião: ela é fraca! Falta audácia, falta arrojo, falta um ar atrevido e até um pouco de esnobismo na primeira parte do filme e sobra insegurança depois do romance com Gatsby. Daisy é sim um poço de inconstância, mas a apatia de Mulligan e sua falta de química com DiCaprio são vitais para que o filme seja menos do que dele se espera.
Show estético, didatismo e mocinha apática marcam "O Grande Gatsby" Show estético, didatismo e mocinha apática marcam "O Grande Gatsby" Reviewed by Paula Almeida on 15:12 Rating: 5

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