Com Cate Blanchett perfeita, "Blue Jasmine" resgata mulheres de Woody Allen

De alguns atores, costuma-se dizer que suas simples presenças nos filmes valem o ingresso. São os casos de Meryl Streep, Jack Nicholson, Judi Dench, Morgan Freeman, Tom Hanks. E, cada vez mais, de Cate Blanchett.

No cheio de encantos "Blue Jasmine", a australiana traz às telas, sob o comando de Woody Allen, uma de suas melhores atuações – senão a melhor.

Na entrega do Globo de Ouro no último dia 12, Diane Keaton recebeu o prêmio Cecile B. DeMille (homenagem concedida pela Hollywood Foreign Press Association as maiores carreiras do cinema) em nome de Allen, tal forte é a amizade entre os ex-cônjuges.

Keaton exaltou no discurso de agradecimento o grande trabalho que o cineasta faz nos papéis femininos de seus filmes. Mas desde as estonteantes Penélope Cruz e Scarlett Johansson em "Vicky Cristina Barcelona" não se via uma atriz tão sensacional em uma obra de Allen (ainda que Marion Cottilard tenha dado todo seu charme a "Meia-Noite em Paris"). Pois bem, a seca acabou.

No primeiro filme de Woody Allen na América, após a saga por cidades europeias, Cate Blanchett interpreta Jasmine, mulher que teve infância pobre e finalmente entrou para o mundo vip pelos braços do marido milionário, Hal (vivido por um Alec Baldwin cada vez melhor), um homem de negócios e negociatas. Após perder tudo, porém, ela deixa a ostentação de Nova York com uma mão na frente e outra atrás, e vai se abrigar na humilde casa da irmã Ginger (Sally Hawkins) em São Francisco.

Jasmine e Ginger são irmãs sem laços sanguíneos (ambas foram adotadas quando crianças), nem afetivos. A parente pobre admira a rica, e os flashbacks que vêm e vão ao longo do filme mostram que Jasmine se divide entre a mínima ternura pela irmã e uma grande vontade de escondê-la do mundo por vergonha.


Apoiada sempre por Ginger, Jasmine tem um choque de realidade em São Francisco, e aí percebemos que sua vida é formada por mentiras – desde a aparência (e como Cate está elegante e divina!) até o próprio nome. Em busca de um emprego que possa pagar o curso que a fará decoradora graduada, a protagonista se vê em algumas cenas hilárias, mas que para elas são puramente penosas. E como se não fossem suficientes seus problemas, ela ainda tenta se envolver na vida amorosa da irmã, que parece ter dedo podre para homens.

Não há absolutamente nada melhor do que Cate Blanchett em "Blue Jasmine". Esplendorosa na elite, totalmente perdida na penúria e brilhantemente angustiante nos surtos de crise do pânico da personagem. Não à toa, ela abocanhou o Globo de Ouro de melhor atriz de drama e é favorita a conquistar o segundo Oscar de sua carreira (já venceu em 2004 por "O Aviador"). Sally Hawkins também aparece muito bem ao fazer contraponto ideal a Blanchett (e surpreendeu com indicações aos dois principais prêmios do ano como coadjuvante).


O poder de Woody Allen para fazer rir em de dramas pesados também atrai, mas a importância do cenário, sempre tão presente em suas obras, fala pouco em "Blue Jasmine". A narrativa também sofre levemente. Enquanto o passado de desbunde da personagem é mostrado milimetricamente, seu presente é apresentado aos saltos, como se Jasmine vivesse um turbilhão em poucos dias. Nada grave, mas talvez decepcionante para alguns.

Para encerrar, vale destacar justamente as cenas que abrem e fecham o filme. Os dois monólogos são prefácio e conclusão perfeitos para o estado mental de Jasmine.
Com Cate Blanchett perfeita, "Blue Jasmine" resgata mulheres de Woody Allen Com Cate Blanchett perfeita, "Blue Jasmine" resgata mulheres de Woody Allen Reviewed by Paula Almeida on 15:46 Rating: 5

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